quinta-feira, 16 setembro 2021 16:37

Sonae e Jerónimo Martins: Portugal tem que investir nas pessoas

Portugal tem que investir nas pessoas, na sua formação e requalificação, porquanto são elas que poderão proporcionar vantagem competitiva ao país. A garantia foi dada pela presidente da Comissão Executiva da Sonae, Cláudia Azevedo, e pelo administrador-delegado e presidente do Conselho de Administração da Jerónimo Martins, Pedro Soares dos Santos, durante a APED Spring Conference, no dia 12 de maio.

 Ambos entendem que o setor da distribuição está de parabéns pela forma ágil e efetiva como respondeu à situação gerada pela pandemia, oferecendo estabilidade à sociedade e, em simultâneo, inspirando confiança no futuro.

A CEO da Sonae, Cláudia Azevedo, foi a primeira a intervir no debate sobre “O futuro do retalho em Portugal”, moderado pelo diretor-geral da APED, Gonçalo Lobo Xavier, salientando que uma das grandes incógnitas trazidas pela pandemia é saber quando acabará, além de ter sido, desde logo, geradora de uma crise de saúde, económica e social, à qual o setor alimentar está muito exposto.

Recuando a março de 2020, a presidente da Comissão Executiva da Sonae recordou que o grupo, possuidor de vários formatos, teve cerca de 1.000 lojas fechadas entre Portugal e Espanha, registando em paralelo uma “explosão” nas lojas de bens essenciais, área alimentar e eletrónica. “Nos entrepostos, por exemplo, estivemos durante três semanas acima do pico do Natal, o que implicou um esforço enorme dos colaboradores e fornecedores, e, em geral, demos uma resposta muito ágil. Acho que o setor da distribuição está de parabéns”, disse, sublinhando que se sentiram muito acarinhados pelo público e que “os colaboradores nas lojas foram uns heróis”.

Já o administrador-delegado e presidente do Conselho de Administração da Jerónimo Martins, Pedro Soares dos Santos, adiantou que no grupo, a operar em três geografias, a gestão das operações assumiu diferentes formas.

“O setor alimentar foi um beneficiário comparativamente a muitos outros. A minha solidariedade vai para todos aqueles que trabalhavam em retalho não alimentar, que sofreram fortemente. Criou-nos alguns problemas nas operações, houve muita incerteza e instabilidade, principalmente nos primeiros quatro meses, mas o retalho demonstrou a importância de manter a cadeia alimentar a funcionar”, declarou o presidente do Conselho de Administração da Jerónimo Martins.

Pedro Soares dos Santos afirmou, inclusivamente, que a determinada altura as pessoas que trabalhavam nas lojas do grupo sentiram estar a prestar um serviço ao país, semelhante a outros profissionais que também estiveram na linha da frente. “Se a cadeia e as empresas de distribuição alimentar têm falhado neste processo, ter-se-ia instalado o caos”, frisou. Mas, naturalmente que cada governo reagiu de forma diferente à situação e enquanto o executivo polaco permitiu que as cadeias de retalho se mantivessem abertas 24/18 horas, para que as pessoas pudessem planear as suas compras, Portugal impôs muitas restrições, e a Colômbia descentralizou a decisão para as localidades. “Em Portugal fomos muito afetados porque 15% das vendas eram feitas através do Canal Horeca e desapareceram de um dia para o outro, a nossa cadeia de retalho desapareceu, mas o alimentar funcionou, a companhia continuou a trabalhar, não foi o fim do mundo. Neste cenário de pandemia, a cadeia alimentar onde estamos, beneficiou”. Na Polónia a situação decorreu com tranquilidade, mas na Colômbia, em confinamento seis meses seguidos, “não foi fácil, porque há no país 18 milhões de consumidores que precisam diariamente de arranjar dinheiro para comer”, declarou, acrescentando que as equipas locais conseguiram lidar com a tensão, referindo ainda a eficácia das autoridades. Foi afetada apenas uma loja.

 

Transição digital e climática

Gonçalo Lobo Xavier relembrou, de seguida, que não obstante a incerteza vivida, a Comissão Europeia manteve a transição digital e climática como prioridades, razão pela qual perguntou a Pedro Soares dos Santos que desafios e ações considerava críticos para o cumprimento das metas europeias. Em resposta, o presidente do Conselho de Administração da Jerónimo Martins notou que há apenas uma realidade no planeta, e que não há também segundo planeta. “A produção alimentar é responsável por ¼ das emissões de gases com efeito de estufa e por 70% do consumo de água doce. Isto tem impacto na nossa vida, tal como a alimentação massiva que acabou com a fome no mundo ou reduziu-a praticamente a zero, e não se pode voltar atrás nesta matéria. Acresce que metade da área mundial habitável é agrícola, pelo que o investimento em tecnologia vai ser fundamental para a poupança de água e para perceber como é que o setor agropecuário vai poder desenvolver-se com menos efeitos”, especificou. E as cadeias de retalho não podem ficar fora deste jogo, vão ter que investir muito na preparação dos seus quadros, no conhecimento sobre a agricultura do futuro e sobre como ajudar a cadeia de abastecimento a ser mais efetiva, disse. Considerou ainda que a União Europeia (UE) tem um “projeto muito interessante, mas caro”, e, numa alusão a um eventual financiamento para ajustar os desafios que as empresas enfrentam, afirmou: “os financiamentos depois tornam-se políticos, e, muitas vezes, não são canalizados para aqueles que verdadeiramente podem fazer a diferença. Um dos grandes desafios que vamos ter, muito mais do que o digital, é como tornar cada vez mais sustentável toda a cadeia de abastecimento. Para mim, este é o ponto número um de todo este processo”, sublinhou.

 

Requalificar 1/3 da população ativa

Na mesma lógica, Gonçalo Lobo Xavier perguntou que ações Cláudia Azevedo considerava essenciais para criar um ecossistema de retalho eficaz, ao encontro dos objetivos e sem esquecer as pessoas, ao que a CEO da Sonae respondeu: “estamos num setor fundamental, a jusante e a montante. Tanto na parte de fornecedores e agricultura, como de clientes, há muito a fazer e não há bons negócios num mau planeta, portanto temos muito que fazer em termos de sustentabilidade”. Referindo-se especificamente às pessoas e à sua qualificação, relembrou que Portugal é um país pequeno, pelo que não existe benefício da escala e não vai existir o benefício associado a grandes investimentos digitais. “O que podemos fazer é qualificar as pessoas. Onde Portugal pode investir mais é nas suas pessoas, sendo que o país ocupa a pior posição da Europa em termos de cidadãos com o ensino secundário e superior. É um desafio enorme e só depende dos portugueses e dos governos, mas é o mais importante neste momento”, avançou. Claúdia Azevedo mencionou ainda um estudo, da CIP e da Nova, segundo o qual 700 mil portugueses precisam de qualificações e 300 mil têm o posto de trabalho em risco pela digitalização, o mesmo acontecendo a cerca de 800 mil dentro de 20/30 anos. Tendo em conta que a população ativa é de cinco milhões, estes 1,8 milhões correspondem a cerca de 1/3 da população que precisa de requalificação, o que configura um “desafio muito grande, mas absolutamente necessário”. Aludindo ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), a presidente da Comissão Executiva da Sonae disse que no documento constam cerca de dois mil milhões de euros para qualificação, cerca de 2/3 dos quais destinados a construção, quando, no seu entender, o que é preciso é requalificar as pessoas. “O processo tem que ser bem feito, e este ecossistema tem que começar a funcionar em Portugal, porque as pessoas vão ser a nossa fonte de vantagem competitiva. Creio que só qualificando os portugueses é que teremos vantagem competitiva”, referiu.

 

Nota: Pode ser este artigo na íntegra na edição de abril-junho da Store.

Fonte: Store

Newsletter

captcha 

Assinar Edição ImpressaAssinar Newsletter Diária