segunda-feira, 15 novembro 2021 15:18

Carl Frey: A Inteligência Artificial não será a tecnologia mais importante

Autor de obras sobre Inteligência Artificial e estudos de história económica versando o emprego numa Era da automatização, o economista sueco-germânico Carl Frey esteve à conversa com a Store sobre estas temáticas, que também abordou na APED Spring Conference. Não vê a máquina a tomar o lugar do homem num futuro próximo, mas admite que o e-commerce disparou desde que a Covid-19 tomou conta do mundo e transformou o setor do retalho, entendendo que a Inteligência Artificial não será a tecnologia mais importante em termos de transformação operada no setor do retalho.

O cenário apocalíptico dos filmes de ficção em que as máquinas tomam o lugar do Homem na Terra é uma realidade que Carl Benedikt Frey não antevê para o futuro da Humanidade, embora os seus estudos sobre a Era da Automatização e o impacto da Inteligência Artificial (IA) na sociedade tenham sido utilizados para desenhar um porvir mais Hollywoodesco e negro. Em entrevista à Store, o autor e historiador económico, Oxford Martin Citi Fellow e diretor do Programa de Tecnologia e Emprego da Universidade de Oxford, falou sobre essas temáticas, incidindo na transição digital cuja implementação acelerou no setor do retalho, no último ano e meio. Não por vitória da máquina sobre o Homem, mas mercê da pandemia causada pelo novo coronavírus.

“A Inteligência Artificial não será a tecnologia mais importante quando falamos na transformação operada no setor do retalho. Claramente, a pandemia acelerou a mudança para o e-commerce e para a Era do digital. As pessoas, em virtude das circunstâncias, passaram a comprar muito mais a partir de casa do que através de deslocações à rua. Desta forma, podemos garantir que a pandemia já transformou o setor do retalho que conhecíamos até então”, explicou Frey, co-autor, em 2013, da obra “The Future of Employment: How Susceptible Are Jobs to Computerisation”.

A carreira académica de Frey passou pelos cursos de Economia, História e Gestão na Lund University, na qual deu aulas nos Departamentos de História e Economia, após completar o doutoramento, em 2011, no Max Planck Institute for Innovation and Competition. O reconhecimento de que a crise sanitária já operou alterações não faz, todavia, com que o fundador do programa Future of Work na Oxford Martin School vislumbre um futuro propriamente negativo. “O e-commerce, apesar de tudo, ainda reflete apenas uma pequena quota parte das transações do setor do retalho. Aliás, o comércio tradicional tem ainda a seu favor a componente do fator confiança e, além disso, modernizou-se com os pagamentos automáticos. Aqui, admite-se que a IA possa ter substituído o lugar de alguns operadores de caixa, mas a simples transição para as compras de forma digital, em vez de uma compra presencial no retalho tradicional, talvez seja a transformação mais significativa e de maior impacto”, advogou.

“Esta aceleração do digital em tempos de pandemia também se refletiu nas tecnologias aplicadas ao teletrabalho, por exemplo. Provavelmente, vemos algo semelhante se analisarmos as tecnologias de automatização. Houve um número considerável de startups a nascer no setor da restauração com financiamento inicial por terem por base a automatização. As pessoas passaram a interagir com baristas, empregados de mesa, rececionistas ou operadores de caixa automáticos, como resultado da pandemia”, especificou.

Carl Frey categoriza em três áreas a sua teorização sobre IA, considerando que o “homem ainda detém vantagem considerável” sobre a máquina. “A IA já permite que algoritmos traduzam textos de uma determinada língua, quando alguém, por exemplo, publica algo no Facebook. Assim, já não precisamos de pedir a um amigo que traduza. Basta clicar na função de traduzir e podemos ver o que foi escrito. Apesar disso, a vantagem do trabalho humano é considerável”, assevera o economista que, em 2019, integrou o World Economic Forum's Global Future Council, tal como o Bretton Woods Committee.

“A primeira das três áreas em que a máquina está longe de ultrapassar o homem prende-se com as interações mais complexas entre seres humanos, logo quando avaliamos as capacidades da máquina no âmbito da comunicação, usualmente ficamos confinados ao modo de texto. E mesmo aí está longe de ter uma performance perfeita. Por exemplo, em avaliações de modelos de caixas de chat que pretendem passar-se por pessoas, embora mais eficazes estes algoritmos estão longe de fazer o mesmo do que uma pessoa na comunicação escrita básica. Comunicamos de forma muito mais variada e complexa”, salientou, enumerando “a criatividade” como o segundo ponto.

“Há novas ideias para artefactos que fazem sentido, mas acabamos por nos deparar com grandes problemas de engenharia. De alguma forma, sentimos dificuldade em especificar o que é a criatividade, numa primeira instância. A terceira categoria, no sentido lato, prende-se com a perceção e manuseamento dos objetos irregulares, que se movimentam em ambientes não estruturados. Uma das coisas que gostaríamos de ver postas em prática relaciona-se com a limpeza doméstica. Cada casa tem centenas de objetivos diferentes que precisam ser limpos, desde um vaso com uma planta a um pote de decoração. Não é fácil explicar à máquina a estrutura de todos os objetos”, exemplificou o especialista nascido em Estocolmo e que, em 2020, se tornou membro do Global Partnership on Artificial Intelligence (GPAI), uma iniciativa multissetorial para orientar o desenvolvimento responsável da IA, promovida pela OCDE.

Esta entrevista pode ser lida na íntegra na edição impressa da Store.

Fonte: Store

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