quinta-feira, 18 novembro 2021 16:52

Pedro do Carmo: Produtores deram resposta assinalável à Covid-19

A Covid-19, ao “afetar as dinâmicas humanas, individuais e comunitárias, teve impactos na cadeia de produção e distribuição da agricultura e das pescas.” Quem o diz é o presidente da Comissão de Agricultura e Mar da Assembleia da República, Pedro do Carmo, que qualifica como assinalável a resposta dos agricultores, produtores e pescadores nacionais às necessidades de abastecimento de produtos alimentares. Em entrevista, partilha algumas das maiores dificuldades vividas nos setores da agricultura e das pescas, a capacidade de resposta nacional, as lições a retirar, as principais preocupações e o caminho a trilhar, que passa pela “valorização da produção nacional”.

Pedro do Carmo enumera algumas das provações vividas durante a fase mais crítica da pandemia, “como problemas de escoamento, dificuldades em abrir novos ciclos de produção e dinâmicas locais, regionais, nacionais e de exportação que foram condicionadas”, apontando o caminho, por forma a tentar evitar contextos semelhantes. “Precisamos de reforçar a capacidade produtiva nacional para salvaguardar mínimos de resiliência em situação de crise”, defende.

Entre os grandes desafios está “a sustentabilidade e o equilíbrio das soluções produtivas”, de acordo com o presidente da Comissão de Agricultura e Mar da Assembleia da República, que revela ainda quais são as áreas estratégicas definidas pelo organismo que preside, os setores mais relevantes para a economia e para o país, bem como algumas das diretrizes da primeira versão do plano estratégico agrícola, no âmbito da Política Agrícola Comum (PAC). “A reforma da PAC deve reforçar o sistema agroalimentar europeu, tornando-o mais sustentável e mais justo para todos”, sustenta.

Store | De que modo influenciou a pandemia provocada pela Covid-19 os setores da agricultura e pescas?

Pedro do Carmo | Ao afetar as dinâmicas humanas, individuais e comunitárias, teve impactos na cadeia de produção e distribuição da agricultura e das pescas. Por exemplo, a redução das atividades turísticas, as limitações na hotelaria e na restauração, determinaram impactos muitos importantes no escoamento da produção agroalimentar. Na agricultura como nas pescas houve um impacto inicial por via dos condicionamentos por razões de saúde pública e depois existiram ajustamentos, adaptações e uma enorme capacidade de reagir e superar face às dificuldades. Naturalmente, houve dinâmicas que foram interrompidas ou condicionadas, no consumo, na distribuição e na internacionalização, mas a resposta do Mundo Rural, dos nossos agricultores, produtores e pescadores foi assinalável. Portugal precisou de respostas no abastecimento de produtos alimentares e o Mundo Rural disse presente.

Vivemos tempos difíceis também nestes setores?

Sem dúvida, houve problemas de escoamento, dificuldades em abrir novos ciclos de produção e dinâmicas locais, regionais, nacionais e de exportação que foram condicionadas, mas apesar das dificuldades foram disponibilizados apoios, foram realizados ajustamentos e surgiram novas oportunidades para a produção nacional. Em todo o caso, é preciso ter noção de que a pandemia em algumas áreas acrescentou novos desafios aos problemas estruturais. Para ambos, é preciso continuar a construir respostas e soluções. Precisamos de reforçar a capacidade produtiva nacional, para salvaguardar mínimos de resiliência em situação de crise.

Esta crise mundial quebrou barreiras com um passado recente? Em que áreas em concreto e em que medida?

É uma evidência que as cadeias de distribuição alimentar não podem ser tão longas e estar tão dependentes de fornecedores fora do território nacional e fora do espaço europeu. Há mínimos de resiliência e de valorização das atividades produtivas nacionais que têm de ser salvaguardadas, também porque contribuem para a dinamização das comunidades e dos territórios rurais. Por outro lado, a pandemia sublinhou a importância destes setores terem um posicionamento digital, com capacidade de chegar de forma direta aos consumidores, que têm novos hábitos e exigências.

Que lições podemos retirar da crise pandémica e qual o caminho que deve ser trilhado rumo a uma recuperação económica nos setores da agricultura e pescas?

O caminho só pode ser o da valorização da produção nacional, do que fazemos, de quem o faz e da excelência dos nossos produtos em terra e no mar. Estes setores são pressupostos da qualidade de vida e da coesão territorial, importantes para a nossa economia, no território nacional e nas exportações. Por muito que possa custar a alguns citadinos e comprometidos com modas proibicionistas de tradições rurais, não haverá futuro sem estes setores e as pessoas que neles trabalham. Portugal precisa do Mundo Rural, da sua capacidade produtiva e de cumprir o seu potencial social, económico e cultural.

Quais as áreas definidas como estratégicas pela Comissão de Agricultura e Mar?

A produção, os produtos, os instrumentos financeiros de apoio, a distribuição, os consumidores e as condições de produção estão naturalmente no nosso horizonte, num trabalho de fiscalização do governo, de monitorização das realidades e de diálogo permanente com os intervenientes nos setores da agricultura e do mar. Posicionamento no lado de quem quer construir para as soluções e para a valorização da produção nacional, atentos aos bloqueios, aos desafios e às oportunidades.

Quais os setores mais relevantes para a economia e o país?

Pelo seu peso para as comunidades, para as economias locais, para as exportações e para os desafios da sustentabilidade, todos os setores na agricultura e nas pescas têm uma importância para a economia e para o país. Sem possibilidade de produzir em grande escala, temos condições para o fazer com qualidade, com diferenciação e com sentido de sustentabilidade. Por essa via, há um universo de contributos parciais de produção que fazer um todo importante para o país, com diversas funções internas e externas.

Como tem sido o diálogo da Comissão com o setor do retalho?

A Comissão mantém um diálogo construtivo, aberto e com sentido de futuro com todos os que contribuem para a cadeia de produção e distribuição dos setores da agricultura e do mar. Todos contam, todos são importantes.

Em que temáticas o papel da distribuição pode ser ainda mais relevante?

Julgo que temos desafios de procurar novos equilíbrios que contribuam para a valorização das atividades produtivas, pela remuneração justa nos tempos adequados, para a facilitação do acesso dos consumidores à excelência dos produtos nacionais e para incorporação de inovação e mais valias na produção nacional que é exportada. Em todo o caso, o escoamento é fundamental.

Num país com uma grande costa marítima, que impedimentos, a nível legal, existem ainda relativamente ao desenvolvimento da aquacultura?

A sustentabilidade é sempre uma preocupação vital, mas é importante manter um sentido de bom senso e de agilização das burocracias. Hoje, o tempo de decisão e dos processos é incompatível com as dinâmicas sociais e económicas. Sem abdicar do essencial da preservação ambiental e da sustentabilidade, precisamos de responder mais rápido a quem quer fazer, naturalmente, com envolvimento das comunidades locais. A burocracia em excesso é inimiga da sustentabilidade e do desenvolvimento.

 

Fonte: Store

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