segunda-feira, 11 janeiro 2016 17:36

Europa tem de derrubar as barreiras ao e-commerce

Preside ao EuroCommerce desde março, assumindo um mandato de três anos que elegeu como prioridade zelar por um mercado único efetivo, contribuindo nomeadamente para o derrubar das barreiras regulatórias que, afirma, estão a prejudicar sobretudo as pequenas e médias empresas. Em entrevista, o sueco Kenneth Bengtsson aborda os desafios da revolução digital e os contributos do setor para a criação de emprego e para o crescimento da economia europeia.


Store | Quais são as prioridades do seu mandato?

Kenneth Bengtsson |
Na reunião do conselho de administração de abril último, definimos seis metas estratégicas para o EuroCommerce: uma política digital baseada na confiança, no mercado único, na infraestrutura e nas competências; um mercado único quer para produtos, quer para serviços, em que a legislação que afeta as empresas e os consumidores conduza a uma melhor regulação; um ambiente comércio internacional aberto e previsível; relações comerciais justas e equilibradas, que apoiem a promovam cadeias de abastecimento eficientes e sustentáveis; um mercado de trabalho flexível e um diálogo social que permita criar empregos e dotar as pessoas com as competências adequadas para enfrentarem as futuras necessidades de um mercado que muda constantemente; e uma política de sustentabilidade consistente com o crescimento e a criação de emprego.

De um modo geral, a minha visão para o EuroCommerce para os próximos três anos passa por colocar o retalho e o setor grossista no centro do processo decisório europeu. Como principal empregador na Europa, estamos numa posição privilegiada para criar o emprego e gerar o crescimento de que a Europa precisa tão urgentemente. E conseguir as medidas legislativas e o enquadramento regulatório adequado é vital para alcançar estes objetivos. Nesse âmbito, fazer com que o mercado único funcione corretamente é crucial.

Store | O seu mandato coincide, na quase globalidade, com uma nova Comissão Europeia. Como olha para a cooperação entre as duas entidades?

KB | Nos últimos anos, temos trabalhado para garantir que as prioridades estratégicas do EuroCommerce têm correspondência no programa de trabalho da Comissão, nomeadamente o foco no emprego, no crescimento e no investimento, na economia digital, no mercado interno, no comércio livre. O retalho e o setor grossista constituem uma fonte de emprego muito necessária, empregando 29 milhões de pessoas, muitas delas jovens, e envolvendo 500 milhões de consumidores em toda a Europa numa base diária. Daí que procuremos colaborar estreitamente com todas as partes relevantes da Comissão, mas também com o Parlamento Europeu e os Estados membros, de modo a participarmos nas mudanças políticas que gostaríamos de ver.

Para o crescimento da economia da União Europeia é vital que o mercado único funcione corretamente e, estando próximo dos consumidores, o retalho necessita do crescimento económico para ele próprio crescer e melhorar o serviço aos consumidores. Neste âmbito, a revolução digital significa uma mudança muito importante para nós, sendo fundamental adotar as medidas adequadas para remover as atuais barreiras. Atualmente, um em cada dois consumidores faz compras online, gerando 350 mil milhões de euros em vendas, mas são poucos – cerca de 15 por cento – os que compram a um fornecedor fora do seu país de origem. As pequenas e médias empresas (PME) têm potencial para beneficiar do e-commerce, mas também enfrentam grandes problemas devido às barreiras regulatórias nacionais. É por isso que estamos a diligenciar junto da Comissão no sentido da remoção destas barreiras, mas também incentivamos as PME a equiparem-se para aproveitar as oportunidades que a revolução digital oferece ao retalho.

Store | Em que medida é que o EuroCommerce tem poderes negociais efetivos enquanto representante do retalho europeu?

KB | O EuroCommerce está em Bruxelas há 22 anos e tem vindo a consolidar-se como um representante legítimo e reconhecido de todas as formas de retalho e comércio grossista. Os políticos europeus e os reguladores reconhecem a importância de um setor que representa uma em cada quatro empresas na Europa e um em cada sete empregos – o maior empregador privado.

É verdade que há sempre mais para fazer para afirmar este posicionamento e ver esta importância refletida nas prioridades da União Europeia. No entanto, temos sido bem sucedidos na melhoria das políticas europeias em muitas áreas, sendo a mais recente a redução radical das taxas que os consumidores pagavam quando usavam cartões de crédito. Também conquistámos reconhecimento através da Supply Chain Initiative, um compromisso voluntário de todas as partes da cadeia de abastecimento visando um comércio mais justo e um código de boas práticas. Procuramos disseminar e fazer valer estas ideias através partilhando informação junto dos responsáveis da UE e dos legisladores em todas as instituições comunitárias em Bruxelas, tentando mostrar-lhes onde é que as medidas podem ser úteis para os nossos membros e, através deles, para os consumidores.

Store | Quais são, na sua opinião, os principais desafios que o setor enfrenta?

KB | Enfrentamos um conjunto de desafios mas também, e sem banalizar o termo, oportunidades reais, se, como o setor retalhista e grossista já mostrou mais do que uma vez, nos adaptarmos rapidamente à mudança, oferecendo aos nossos consumidores os produtos e serviços que eles procuram. Isto significa abraçar a tecnologia digital para ir ao encontro das necessidades dos consumidores no sentido de serviços integrados e entrega imediata, do fim das barreiras para obter e oferecer os melhores produtos no mercado global, ao mesmo tempo que responde à procura de produtos locais rastreáveis. Para isso, precisamos de um quadro regulatório adequado às vendas digitais e offline e esperamos da UE uma intervenção real no sentido de remover os muitos obstáculos que ainda impedem que o mercado interno atinja o seu potencial máximo e de promover um ambiente comercial global em que nós e os nossos consumidores tenhamos acesso ao melhor que o mundo tem para oferecer. Enquanto setor constituído em 99 por cento por PME, também atribuímos imensa importância a uma regulação que tenha em conta as necessidades de todas as empresas.

Store | Já aqui se falou que o digital está na agenda. O setor está preparado para estes novos consumidores?

KB | Sim, está, mas necessita de pessoas com as competências adequadas para explorar todo o potencial da tecnologia digital. Nesse sentido, estamos ativos em muitas frentes, cooperando com outras entidades a nível europeu e nacional, visando trazer para o retalho uma nova geração de pessoas, empreendedoras e familiarizadas com a tecnologia. Muitos retalhistas já oferecem um leque de opções de compra – online, na loja, click and collect, aquilo que os especialistas designam como oferta omnicanal – mas eu simplesmente deixaria que fossem os consumidores a decidir qual a forma de compra que mais se ajusta.

Ainda assim, há muito mais para fazer e vemos que todos os dias surgem novas ideias no mercado, cabendo ao setor agilizar-se no sentido de responder e mesmo antecipar as tendências. O consumidor está no centro do retalho e estou mais do que confiante de que o setor será capaz de se transformar para corresponder às necessidades dos consumidores.

Store | Num ambiente tão desafiante, como conseguirá o retalho europeu manter a competitividade?

KB | O retalho sempre foi, e continuará a ser, um mercado ferozmente competitivo. E os retalhistas têm tido de garantir que possuem o melhor leque de produtos, serviços e preços para serem efetivamente concorrenciais. O digital e o discount vieram acelerar o ritmo a que precisamos mudar, mas acredito que os nossos membros sabem como fazê-lo, na medida em que nos últimos 20 anos, desde que o EuroCommerce foi fundado, já passaram por mudanças radicais. Quanto ao EuroCommerce, o nosso papel é proporcionar ao setor o espaço para se desenvolver, assegurando que temos na Europa as políticas regulatórias e económicas adequadas. Se o conseguirmos, penso que podemos deixar nas mãos dos retalhistas a tarefa de crescer e evoluir e de continuar a passar os benefícios para os nossos fornecedores e, acima de tudo, para os nossos consumidores.

Esta entrevista pode ser lida na íntegra na última edição impressa da Store Magazine.

fs@storemagazine.pt

Newsletter

captcha 

Estante

Assinar Edição ImpressaAssinar Newsletter Diária