segunda-feira, 02 abril 2018 17:07

A Nielsen e o retalho em Portugal: “Há um potencial enorme para o online”

“O consumidor português adora inovações, tendências e modas novas”. Palavras da diretora de serviços de retalho da Nielsen, Ana Paula Barbosa, que vê nestes interesses oportunidades para os retalhistas portugueses. Uma oportunidade é também o comércio online, onde se regista uma apetência crescente de consumo.

 

Store | O momento positivo do retalho alimentar é uma tendência global?

Ana Paula Barbosa | Não é global. Na Europa também existe uma tendência positiva, mas a realidade país a país difere bastante. Nem sempre há uma correlação com a situação económica do país.

Tem a ver com que fatores?

Há vários fatores. Até pode haver uma relação com a situação económica, mas não ser direta. Por exemplo, em Portugal, o maior consumo fora de casa, que, às vezes está relacionado com um contexto mais positivo, pode levar as pessoas a comprarem menos produtos alimentares para consumir em casa. E depois há uma variável muito importante, que é a deflação. Já vivemos essa situação em Portugal. Quando estávamos num contexto de forte atividade promocional havia deflação, que causa um impacto negativo na tendência dos bens de grande consumo.

Outra tendência que se tem vindo a verificar é o aumento da confiança dos consumidores.

Sim, creio que a inversão de deu em meados de 2014.

Até quanto é que pode subir?

É difícil de dizer, porque a confiança nunca esteve tão elevada. Deve-se ao facto de a situação ter estado muito mais difícil há uns anos e agora haver esse sentimento de recuperação e de melhoria, porque não podemos dizer que, em termos de consumo, estejamos num período mais positivo do que antes da crise. Crescer mais seria completamente inédito, porque já estamos muito próximo da média europeia, a que nunca chegámos.

Outra tendência muito forte são as promoções. Os portugueses estão viciados em promoções?

Sim, estão viciados, porque têm muita oferta. Havendo uma oferta muito forte, eles vão atrás desta tendência. Mas sabemos que também são sensíveis a outras coisas. Tanto os industriais como os retalhistas devem tentar apostar nessas tendências, para tentar fugir à questão promocional, que, na nossa perspetiva, está já num nível que não é benéfico para ninguém. Há que buscar alternativas e tentar recuperar a lealdade do consumidor. Neste momento, retalhistas e industriais deparam-se com consumidores que não são leais.

Como é que se cria lealdade?

Por exemplo, através dos colecionáveis. São campanhas que não têm nenhum benefício em termos de preço e, no entanto, têm muito êxito junto dos consumidores. É apenas um exemplo com alguma criatividade se consegue cativar e fidelizar clientes. É claro que agora já se estão a multiplicar as campanhas de colecionáveis. E, como acontece com as promoções, vai chegar a um ponto em que já não surtem efeito. A conclusão é que é preciso inovar, a nível de produto, de retalho, de dinâmica promocional. O consumidor português adora inovações, tendências e modas novas. É preciso dedicar algum investimento para desenvolver campanhas criativas que criem laços emocionais com os clientes e que consigam incentivar uma melhor fidelização do consumidor.

Num cenário em que os preços já não diferenciam marcas da distribuição de marcas de fabricante, como é que podem competir?

Há que procurar, mais uma vez, inovar e diferenciar os produtos com estas novas tendências do consumidor. O foco não deve estar na concorrência, mas nos consumidores, ou seja, em segmentar e depois tentar perceber o que fazer aos produtos para cativar novos clientes e diferenciar da concorrência. E com estas tendências que já referi – saúde, dietas, cada vez menos ingredientes indesejáveis, respeito pelo meio ambiente – consegue-se diferenciar o produto e desviar a atenção do consumidor para outros atributos que não o preço.

Vivendo-se um período mais positivo para o consumo, aumentou a compra por impulso?

Sim. É uma boa notícia para todos, porque há que incentivar essa compra. E os fenómenos de moda, vimos isso com algumas bebidas alcoólicas como o gin. Em Portugal, o consumidor segue muito as modas. Vemos o sucesso das máquinas de café de cápsulas e dos robôs de cozinha, que muitos retalhistas acabaram por seguir. É um sinal claro que o consumidor português está muito aberto a inovações e a tudo o que tenha como objetivo facilitar-lhe a vida. A conveniência é uma tendência muito importante, que vai permanecer. Em termos de preparação das refeições em casa, de facilitar o nosso dia a dia, e no processo de compra, tornando-o mais fácil e rápido.

E como tem evoluído o consumo online?

O consumo online não está com uma evolução muito dinâmica em Portugal, o que está diretamente relacionado com a oferta. Ainda temos poucos retalhistas com oferta online no retalho alimentar e não tem havido um grande dinamismo em termos de modalidades de entrega e recolha dos produtos, como acontece noutros países. Sabendo nós que, em Portugal, as coisas acabam por acontecer e basta haver algum retalhista novo a entrar ou haver um novo foco no online, isto pode de repente despoletar um crescimento. Há um potencial enorme para o online em Portugal. Vai acontecer, mas é difícil dizer quando, porque depende muito da estratégia dos retalhistas nessa área.

É uma oportunidade que os retalhistas portugueses não estão a saber aproveitar?

Sim, uma oportunidade do ponto de vista do consumidor e da aceitação. Os retalhistas têm outra questão: a rentabilidade, que, principalmente no início da operação online, não é elevada. É um investimento.Aquilo que, do ponto de vista do consumidor, é uma oportunidade, de cativar clientes, de ter uma estratégia de multiformatos e até em termos de lealdade traz muitos benefícios, para o retalhista se calhar no curto prazo o benefício não existe. É uma questão que tem que ser pensada mais no longo prazo, porque sabemos que daqui a uns anos será uma realidade, e tem que ser preparada desde já.

Esta entrevista pode ser lida na íntegra na edição impressa da Store Magazine.

sd@briefing.pt

 

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