segunda, 14 maio 2018 16:43

Ernest Moniz: “Na agenda da inovação, a Europa está em vantagem”

Ernest Moniz, o lusodescendente que foi Secretário da Energia dos Estados Unidos entre 2013 e 2017, quando Barack Obama ocupava a Casa Branca, foi o convidado especial do APED Retail Summit, que decorreu a semana passada em Lisboa sob o mote “Sharing the future”. Atualmente CEO da Energy Futures Initiative, defendeu, em entrevista à Store, que a inovação é uma ferramenta necessária para acelerar o ritmo da caminhada para uma economia verde e, neste contexto, afirma mesmo que a Europa está em vantagem face ao resto do mundo.

 

Store | Como Secretário da Energia, defendeu que o clima era um dos desafios existenciais do seu portefólio. E que as armas nucleares nas mãos erradas era o outro. O que o levou a coloca-los na mesma equação?

Ernest Moniz | Quer as alterações climáticas, quer as armas nucleares são ameaças globais, embora de natureza diferente. As alterações climáticas vão ter impacto por um longo período de tempo, requerendo uma perspetiva geracional para acelerar a necessária transformação energética para um sistema de baixas emissões de carbono. Além disso, coloca também um desafio coletivo, pois os riscos para o ambiente não são causados por um único país, tal como nenhum país sozinho os pode eliminar. Por outro lado, as armas nucleares podem conduzir à destruição massiva. Embora a probabilidade seja baixa, a possibilidade de uso de armas nucleares é hoje mais elevada do que alguma vez o foi, desde a crise dos mísseis cubanos. A ausência de seriedade no diálogo entre os Estados Unidos e a China, em particular, mesmo que os respetivos militares trabalhem juntos, aumenta o risco. A estas duas ameaças juntaria um terceiro risco global, se bem que de outro tipo: as pandemias, sejam de causas naturais, sejam originadas pelo uso das modernas ferramentas de engenharia genética. Todos estes riscos exigem um grau de cooperação internacional que hoje não é evidente.

Tem sustentado, igualmente, que combater as alterações climáticas é mais difícil. Depois do acordo nuclear assinado com o Irão, essa posição reforçou-se?

Combater as alterações climáticas pode ser mais difícil por ser um desafio coletivo e porque, geralmente, as sociedades consideram mais fácil diferir as soluções que exigem iniciativas que vão para lá do “business as usual”. A escala do sistema energético é enorme – representa cerca de 10% do PIB – e os países tendem a dividir-se sobre a resposta a dar a este problema consoante são consumidores ou produtores de energia e em função do seu nível de desenvolvimento económico. O desafio nuclear também é muito difícil, mas o número de países que possui estas armas é relativamente menor. O restabelecimento das relações entre os Estados Unidos e a Rússia e a renovação do compromisso para a redução das armas nucleares seria um passo significativo em direção à estabilidade estratégica. O acordo com o Irão impede este país de desenvolver armas nucleares e, nesse sentido, é importante para alcançar a estabilidade no conturbado Médio Oriente.

E quanto ao Acordo de Paris? É a ferramenta de que o mundo necessita para abraçar o desafio das alterações climáticas? Mesmo sem os Estados Unidos?

O Acordo de Paris representa um primeiro passo muito importante para lidar com as alterações climáticas. Importante porque todos os países reconhecem a sua responsabilidade na construção de um futuro com baixas emissões de carbono, tendo em conta as metas razoáveis que foram definidas até 2030. Contudo, essas metas estão muito distantes do que é necessário para se alcançar o objetivo consensual de limitar a subida da temperatura média em dois graus Celsius. Até meados do século, vão ser necessárias metas e resultados muito mais ambiciosos. Se os Estados Unidos se retirarem, de facto, do Acordo de Paris a tarefa será, obviamente, mais difícil. Contudo, muitos governantes e empresários já deixaram claro que pretendem manter-se na trajetória das baixas emissões de carbono, independentemente da posição da administração norte-americana. A verdade é que não vamos recuar, mas precisamos acelerar o ritmo.

O clima e a sustentabilidade parecem longe das prioridades das populações. Se não é falta de interesse, o que é? Será porque há necessidades mais prosaicas a preencher?

As pessoas podem descomprometer-se facilmente quando o próprio desafio se manifesta em “câmara lenta” e nenhum país pode resolver o problema. Os governos desempenham um papel fundamental no desenho das soluções, o que passa pela política e por incentivos adequados. No entanto, os governos também são fundamentais no apoio à agenda de inovação com vista ao desenvolvimento de energias limpas. Se novas tecnologias e novos serviços forem disponibilizados às empresas e aos consumidores a baixo custo, a transformação do sistema energético pode ser acelerada até ao ritmo necessário. Já assistimos a descidas incríveis nos preços das tecnologias usadas, por exemplo, na energia solar e na eólica, nas baterias e na iluminação LED. Mas persistem desafios enormes no que respeita à descarbonização dos transportes, das indústrias e da construção, residencial e comercial. São essenciais novas tecnologias que não aumentem, ou aumentem pouco, os custos, quando comparadas com as atuais. Na agenda de inovação, por oposição à extração de combustíveis fosseis, a Europa está em vantagem comparando com a maior parte do mundo. E, embora o setor energético seja o principal no que toca às emissões de gases com efeito de estufa, o uso da terra é outro setor desafiante na necessidade de soluções inovadoras.

Como convocar as pessoas para esta causa comum?

Não há nada que substitua a educação com base na ciência, em incentivos adequadamente estruturados e numa agenda de inovação robusta que proporcione soluções sólidas, económica e ambientalmente.

E as empresas? É possível monetizar a sustentabilidade?
Claro que sim. Na verdade, as empresas são, e devem continuar a ser, líderes. As empresas precisam de certezas nas políticas e na regulação, de modo a poderem tomar decisões que, muitas vezes, têm um horizonte temporal de décadas, incluindo decisões que implicam a alocação de grandes montantes de capital. Só com certezas podem tomar decisões informadas no contexto das futuras expetativas dos mercados. Nos Estados Unidos, as posições e iniciativas federais no último ano tiveram o efeito oposto: criaram incerteza na arena política e regulatória, o que vai ferir a competitividade americana relativamente a países que definiram caminhos mais claros em direção a uma economia de baixo carbono.

Em tempos, declarou que existe uma elite do clima. Quem são? Estão a bloquear o caminho para a economia verde?

Penso que a sua questão se refere a uma opinião que expus num debate na Oxford Union, em que a ideia que estava em cima da mesa é que a apatia individual é a principal barreira a uma abordagem mais efetiva das alterações climáticas. Eu referi-me a essa ideia como sendo de uma “elite do clima”. Já abordamos aqui uma das razões: a necessidade de os governos aprovarem políticas e um quadro regulatório e de inovação que moldem a resposta da sociedade. Outra razão é o facto de os indivíduos e as famílias economicamente desfavorecidos, seja em economias desenvolvidas, seja em países em desenvolvimento, terem desafios de mais curto prazo para enfrentar, mas é extraordinariamente injusto e inútil considera-los como um bloqueio ao progresso. O Presidente Obama, que, obviamente, adotou uma posição de liderança neste dossiê, frisou este ponto de uma forma eloquente.

fs@storemagazine.pt

 

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