segunda, 22 outubro 2018 13:41

Ignacio Gavillan: Os consumidores querem simplicidade e transparência

Lisboa é, esta quinta e sexta-feira, a anfitriã da terceira edição da Sustainable Retail Summit – The Consumer Goods Forum (TCGF). Em entrevista à Store, o diretor de sustentabilidade ambiental, Ignacio Gavilan, revela o desperdício alimentar, a migração e a nutrição como temas em destaque. E aponta caminhos para os retalhistas: “Os consumidores procuram marcas que lhes deem simplicidade, transparência e evidências”, entende.

 

Store Magazine | Quais as expetativas da organização para a SRS – Sustainable Retail Summit?

Ignacio Gavilan | Esperamos ver uma maior colaboração entre empresas de bens de consumo e partes interessadas, como organizações não-governamentais, a academia e órgãos do governo. A mudança de comportamento é o tema principal deste ano, e haverá discussões sobre a interação entre tendências como desperdício alimentar, migração e nutrição. A transparência será também um assunto importante. À medida que a tecnologia avança, esperamos que mais empresas melhorem a monitorização das suas cadeias de abastecimento, reportando os resultados para as partes interessadas, investidores e consumidores. Aguardamos com expectativa a partilha das novas conquistas do setor e, mais especificamente, saber o que os nossos membros locais têm feito.

Quais serão os temas principais a discutir?

Este ano, o Sustainable Retail Summit terá como foco a aceleração de mudanças e as ações positivas para os negócios, as pessoas e o planeta.
Oradores de gigantes da indústria alimentar e de bebidas, como a Ahold Delhaize, a Migros, a Mars,a  Marks & Spencer, a Danone e a Walmart, parar citar apenas alguns, bem como de entidades governamentais e de outras organizações, irão reunir-se em Lisboa para discutir as melhores abordagens estratégicas e os principais obstáculos a superar.
Um assunto-chave será a necessidade de encorajar estilos de vida mais saudáveis para os consumidores. Teremos oradoras da academia, do governo e de empresas privadas que irão discutir a forma de inspirar vidas mais saudáveis.
Igualmente importante será o apoio, por parte das empresas, à migração positiva, debate em que contamos com oradores da Jerónimo Martins, entre outros.
Um terceiro tópico crucial será o desperdício e o que pode ser feito, colaborativamente, para que o retalho seja mais sustentável.

Que tendências se apresentam como emergentes?

Vivemos atualmente uma crise de confiança. A confiança pública em todos os setores da sociedade tem diminuído nos últimos anos, e, embora empresas e empregadores geralmente continuem a desfrutar de um grau de confiança superior ao de governos ou dos media, na maioria dos mercados, não podemos ser complacentes. Os consumidores dizem-nos que a transparência em torno do que compõe os produtos que compram, e o modo como são feitos, é uma componente essencial desta confiança. Num mundo de políticas de pós-verdade e de fake news, os consumidores procuram marcas que lhes deem simplicidade, transparência e garantias.

De que modo é Lisboa uma mais-valia para o SRS?

Portugal possui uma comunidade de retalho bastante dinâmica, que está à frente em tópicos críticos como as práticas de trabalho exploratórias, as mudanças climáticas, a transparência na cadeia de abastecimento e a saúde e bem-estar. Estamos, de facto, a tentar aproximar toda a indústria para que possamos, mais uma vez, discutir os desafios urgentes do setor de bens de consumo.

Como tem sido a colaboração da organização com as entidades portuguesas?

Temos trabalhado ao lado da APED, da Jerónimo Martins e da Sonae, que, ao longo de toda a preparação da cimeira, têm sido extremamente entusiastas, proativas e reativas. Aguardamos ansiosamente a realização do Sustainable Retail Summit em Lisboa e tudo o que poderemos aprender com a experiência dos nossos parceiros.

Os retalhistas estão a conseguir responder às exigências dos consumidores atuais?

Os consumidores estão cada vez mais conectados e são cada vez mais poderosos e exigentes. Graças à Internet e às redes sociais, têm hoje acesso imediato a uma ampla gama de informações sobre os retalhistas e os seus produtos. Os Millennials e a Geração Z estão a exigir produtos de confiança e rejeitam marcas que não tenham cuidado com o meio ambiente e com as pessoas.
Há dez anos, os argumentos para empreender ações positivas eram menos claros. Hoje, é, porém, evidente que os negócios que não integrarem mudanças positivas nas suas estratégias irão falhar no objetivo de atrair os consumidores. Os líderes retalhistas estão mais atentos e uma das suas prioridades é entender melhor, prever e dar aos consumidores o que eles realmente desejam. Os membros do CGF trabalham juntos para encontrar as soluções certas para desafios como o desperdício alimentar, o abastecimento responsável e a eliminação do trabalho forçado.

De que modo se pode encorajar as pessoas a terem práticas de consumo mais sustentáveis?

A nossa indústria tem um papel importante a desempenhar para que a informação esteja mais acessível aos consumidores, de modo a que estes estejam melhor equipados com o conhecimento necessário para fazer mudanças nos seus hábitos diários. Por exemplo, em 2017, o Conselho Diretivo do CGF adotou unanimemente um apelo à ação para simplificar a etiquetagem de informações nos produtos. Queremos facilitar aos consumidores a compreensão das informações das etiquetas e, assim, ajudá-los a reduzir o desperdício alimentar.
“Collaboration for Healthier Lives”, uma iniciativa encabeçada pela CGF Health & Wellness, é outro exemplo de como incentivar os consumidores a fazer melhores escolhas para a sua saúde. Ações em lojas, envolvendo a colaboração entre retalhistas e produtores, ajudam a educar os consumidores e as comunidades sobre melhor nutrição, atividade física, entre outros aspetos, com o objetivo de promover dietas e estilos de vida mais saudáveis.

A sustentabilidade económica é a única forma de consciencializar as empresas para a necessidade de um consumo sustentável?

Há estudos que mostram que a sustentabilidade traz benefícios reais aos negócios quando é conscientemente integrada nas operações. As seis vantagens principais de uma prática sustentável são: melhoria na produtividade; redução de custos; melhor imagem de marca; atrair empregados; atrair investidores; e redução de desperdício. É uma relação win-win para todas as partes interessadas, incluindo consumidores e funcionários.
Há também uma relutância crescente por parte dos investidores em apoiar empresas que enfrentem questões de direitos humanos. A comunidade financeira pode, assim, impor a sua influência e pressionar as marcas a agir. Este foi um tópico importante apresentado no Sustainable Retail Summit organizado em Montreal em outubro do ano passado pelo CGF.

Como podem as empresas aumentar a confiança dos consumidores?

A transparência é amplamente reconhecida como um fator crítico para a confiança do consumidor numa marca ou empresa. Criar confiança através da transparência – dando, por exemplo, a conhecer aos consumidores como o produto é feito – é uma estratégia simples que traz resultados rápidos e efetivos, uma vez que a maioria das outras empresas não se sente à vontade para fazê-lo. Da mesma forma, dar aos consumidores a possibilidade de ficarem a conhecer o processo de produção, seja através de um vídeo no YouTube ou de visitas guiadas, pode ajudá-los a entender melhor e a confiar numa marca.
No The Consumer Goods Forum, focamo-nos sobretudo em transparência do produto – que definimos como dar acesso fácil aos consumidores e aos parceiros da cadeia produtiva a informações confiáveis sobre tudo o que precisam saber sobre o produto e a sua cadeia de abastecimento. Também incentivamos a transparência corporativa, isto é, o engagement dos consumidores e de outras partes interessadas em tópicos do seu interesse na empresa, por mais complexos ou sensíveis que possam ser.
A iniciativa do TCGF “End to End Value Chain” está a trabalhar para desenvolver soluções digitais de transparência para o consumidor, as quais permitirão à indústria aumentar a confiança do consumidor numa altura em que as tendências sociais e os media digitais estão a potenciar a exigência de uma maior transparência.

sd@briefing.pt

 

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