segunda, 12 novembro 2018 17:10

Presidente da PortugalFoods: País deve apostar em marcas-fileira

A PortugalFoods prevê alocar seis milhões de euros à promoção do setor agroalimentar português nos mercados externos. Em entrevista, no contexto dos 10 anos da associação, o presidente, Amândio Santos, defende que o país deve apostar em marcas-fileira para ganhar visibilidade como um todo e, assim, potenciar as exportações.

 

Store | Qual o potencial do setor agroalimentar para a economia nacional?

Amândio Santos | O setor agroalimentar tem crescido fortemente e está hoje muito dinâmico:  é um dos que mais emprego dá a nível nacional e um dos que mais exporta, tendo um impacto relevante na economia do país.

Em 2012, a PortugalFoods definiu com o setor uma estratégia de internacionalização para o período 2012-2017, tendo estimado um crescimento anual para o setor de 4% até 2017, perfazendo um crescimento acumulado de cerca de 20% no período considerado. No entanto, o setor ultrapassou esta expectativa. De acordo com o INE, entre 2013 e 2017 as exportações do setor agroalimentar tiveram um crescimento anual médio na ordem dos 5,5%. Para este ano ainda é cedo para avançar dados, mas só no ano passado o setor exportou 6,6 mil milhões de euros.

Em que medida pode ser um motor das exportações?

Atualmente, Portugal “está na moda” e há que aproveitar a oportunidade para dar mais visibilidade ao “made in Portugal”, não estivéssemos nós a falar de produtos agroalimentares de excelência. Acredito que, apesar do meritório trabalho das nossas empresas em destacar as suas marcas individuais internacionalmente, devemos apostar em marcas-fileira – como, por exemplo, o “queijo português”, o “vinho português”, o “tomate português”, etc. – capazes de darem visibilidade ao que Portugal tem para oferecer. E, se ganharmos visibilidade como um todo, certamente vamos aumentar ainda mais as exportações das empresas nacionais.

 Qual o papel da PortugalFoods nesse âmbito?

A PortugalFoods tem desenvolvido, ao longo dos últimos 10 anos, um amplo trabalho em conjunto com os seus associados. Desde a sua génese que o cluster promove a transferência de conhecimento para o tecido empresarial, dotando-o de competências e ferramentas-chave para competir nos mercados globais. Neste âmbito, somos uma plataforma de matchmaking entre utilizadores e produtores de conhecimento na identificação de oportunidade. Por outro lado, pela diversidade de fóruns e iniciativas estratégicas que dinamiza, a PortugalFoods tem igualmente uma capacidade inata para promover e potenciar parcerias incentivando os players a trabalhar em rede. Este ADN da PortugalFoods surge na base de um longo trabalho com o setor, no que à promoção da internacionalização das empresas diz respeito. Nesta década, é extenso o track-record do cluster ao nível das ações de promoção externa, desde feiras, missões empresariais ou outras tipologias de eventos sob a marca PortugalFoods, orientada pela Estratégia de Internacionalização do Setor 2012-2017. Neste seguimento, em breve estará disponível para o setor a nova Estratégia para o triénio 2019-2021.

Por fim, e porque hoje a informação sobre os mercados é essencial, o cluster detém ferramentas de Business Intelligence, através do acesso a dados de referência internacional que permitem a monitorização e análise de lançamento de novos produtos, tendências de inovação e evolução de mercado, que disponibiliza aos seus associados e ao setor através do Observatório PortugalFoods.

Quais os principais mercados externos visados na estratégia da associação? E porquê?

Os principais destinos das exportações nacionais são Espanha, França, Angola, Reino Unido, Itália e Brasil. Estes são mercados onde temos uma forte presença e onde os nossos produtos são especialmente valorizados. Mas queremos e temos condições para desbravar mercados com consumidores com apetência para produtos de qualidade elevada e dispostos a pagar por ela: temos tido boas surpresas com as nossas empresas em mercados como Japão ou Coreia do Sul. A nova estratégia para o triénio 2019-2021 está agora a ser delineada com os players do setor e desvendará orientações e mercados estratégicos tendo em conta a nossa experiência, a procura do mercado e aquilo que o país tem para oferecer.

 Com que ambição aborda esses mercados?

A ambição é a mesma desde a nossa fundação: dar a conhecer a excelência e diversidade do cabaz de produtos que Portugal pode oferecer, consolidando a presença do “made in Portugal” globalmente. Naturalmente que esta é uma ambição exigente para com as nossas empresas pois é necessária uma oposta na modernização e inovação de processos e produtos… só assim seremos capazes de adequar a oferta às exigências do consumidor em cada um dos mercados onde queremos ser reconhecidos.

Do ponto de vista agroalimentar, e pensando ainda nas exportações, Portugal é um fornecedor competitivo?

As empresas portuguesas têm capacidade de crescer, de se modernizar, de diferenciar os seus produtos e de investir em tecnologia de ponta. Em Portugal, o setor agroalimentar é um dos setores mais bem preparado, tanto ao nível dos empresários, que arriscam e investem, como ao nível de produto e know-how. Somos um país produtor que não compete pelo preço, mas sim pela qualidade e diferenciação, o que nos permite competir sobretudo em segmentos de mercados dispostos a pagar por produtos de valor acrescentado, quer a nível europeu, quer nos EUA, Médio Oriente e Ásia. Se algumas empresas ainda não conseguem dar esse salto é por uma questão de dimensão, afinal de contas a internacionalização requer investimento. Mas a estratégia de internacionalização também é pensada para essas pequenas empresas que beneficiam das sinergias geradas nas ações conjuntas, onde a rede de contactos/empresas permite reduzir o esforço financeiro e trabalhar numa base estratégica de eficiência coletiva.

O que oferece de diferenciador?

O património gastronómico e a capacidade nacional de aliar a inovação à tradição traduz-se hoje em produtos nacionais reconhecidos pela sua qualidade, segurança e diferenciação. Por outro lado, Portugal tem uma costa imensa com influência atlântica que fornece os melhores produtos do mar desde o peixe fresco às conservas, algas e sal marinho. Já a influência mediterrânica presente no território nacional permite-nos ser produtores de excelência de azeite, vinho ou hortofrutícolas como o tomate, Pera Rocha ou Maçã de Alcobaça.  A combinação de todos estes fatores tem permitido à indústria nacional oferecer produtos diferenciadores que têm merecido reconhecimento nos mercados externos havendo ainda um longo caminho pela frente no que à promoção dos produtos nacionais diz respeito. O que é certo é que o consumidor internacional está a ser surpreendido pela qualidade intrínseca dos nossos produtos.

 No que toca a exportações agroalimentares, o vinho destaca-se habitualmente. É uma inevitabilidade? Que outros produtos/segmentos têm potencial de crescimento?

O vinho é talvez o que melhor se tem comunicado lá fora e, por isso, o que aparenta ter maior visibilidade. E é bom que assim continue a alavancar a marca Portugal. Mas, na realidade, exportamos muito mais que vinhos e há produtos que acredito que os portugueses não associam à exportação, desde a pastelaria convencional e padaria até refeições pré-cozinhadas ou snacks.

Pela demanda de conveniência, autenticidade e posicionamento saúde, o setor conserveiro tem vindo a destacar-se no mercado internacional pela boa e potencial aceitação dos produtos de conservas já com ampla variedade disponível nos produtos nacionais. Este é um segmento tradicional que se reinventou e cujo potencial de crescimento se adivinha promissora.

 Em que medida os agentes económicos do setor têm sido capazes de inovar por forma a aumentar a atratividade dos produtos nacionais?

A inovação é essencial para evoluirmos. É a inovação que nos vai levar mais longe e, muitas vezes, não tem de ser uma inovação disruptiva, tem apenas de ser inovador para cada empresa, ao seu ritmo e à sua medida. Considero importante que as empresas do setor estejam a par das mais recentes tendências e das necessidades do mercado para modernizarem os seus negócios e crescer. A PortugalFoods ajuda as empresas portuguesas nesse sentido, mostra-lhes como podem ser inovadoras, abrindo-lhes caminhos novos e dando-lhes alternativas.

A par disso, temos uma relação muito próxima com um conjunto de universidades, institutos e centros de I&D, desde a nossa fundação, que funcionam como polos de conhecimento e como ecossistemas de inovação. E a ideia é que esses ecossistemas inovadores levem os alunos, enquanto futuros profissionais do setor, a pensar desde cedo nas necessidades das empresas e em como podem contribuir para os seus processos de inovação. Algumas dessas ideias são mesmo desenvolvidas e integram o setor.

Uma das formas que temos de fomentar o desenvolvimento de novas ideias inovadoras é atribuindo, anualmente, o prémio Ecotrophelia, um prémio que desafia os estudantes a desenvolverem produtos eco-inovadores do futuro para o setor agroalimentar. Este ano, por exemplo, tivemos a concurso 16 projetos inovadores, um dos quais, o vencedor, concorreu pelo pódio na final europeia durante a SIAL PARIS, competindo com projetos de outros 16 países. Portanto, estamos a fazer coisas novas, a pensar diferente e a criar soluções para o setor. E os empresários têm uma grande abertura para receber estas ideias, por isso, o futuro só pode ser risonho.

 Quais são as expetativas de crescimento das exportações do setor até final da década?

O trabalho desenvolvido pelas empresas, ao longo da última década, permite-nos ter confiança de que o nível das exportações se manterá com crescimentos semelhantes aos apresentados nos últimos anos. Há novos mercados abertos e mercados em fase de negociações para acordos de comércio com União Europeia e com Portugal. Sabemos que o governo está, atualmente, a trabalhar ativamente para a abertura de mais 53 novos mercados. Há, por outro lado, mercados em fase de consolidação e mercado maduros, como por exemplo o espanhol, que dão indicações de que se manterão como líderes das exportações nacionais. Temos, assim, expetativas muito positivas relativamente à performance exportadora do setor e ao peso que este tem na economia nacional.

 Qual o investimento que a PortugalFoods prevê alocar a essa estratégia?

O setor vai beneficiar em cerca de 6M€ através de ações de promoção externa desenhadas e executadas pela PortugalFoods em conjunto com as empresas. Naturalmente que à estratégia de internacionalização se alicerça, igualmente, uma agenda paralela de investigação e inovação que terá um peso significativos nos investimentos promovidos pela PortugalFoods junto do sistema científico e empresarial.

 Fonte: Store

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