segunda-feira, 06 julho 2020 12:28

Pedro Miguel Silva: A confiança do consumidor será determinante

A recuperação da economia portuguesa só ocorrerá quando o consumo voltar a crescer. É esta a leitura que o associate partner da Deloitte, Pedro Miguel Silva, faz do impacto da pandemia de Covid-19. Sobre o retalho, entende que o alimentar e o não alimentar enfrentam desafios distintos nesse caminho.

 

Store | A Deloitte elaborou o relatório “The world remade by Covid-19”. Da vossa leitura da realidade internacional, é mesmo um mundo “refeito” o que virá a seguir?
Pedro Miguel Silva |
Esse relatório representa um esforço conjunto entre a Deloitte e a Salesforce para projetar quatro cenários de evolução social e económica num horizonte de três a cinco anos, considerando fatores como a progressão da doença, nomeadamente a existência ou não de vagas adicionais de infeção; a eficácia de atuação de governos e autoridades de saúde; o nível de colaboração nacional e internacional no combate à pandemia; a profundidade e longevidade da resultante contração económica; e o nível de coesão social e intergeracional que será mantido na resposta à crise.
Todos os cenários têm em comum a expetativa de que ocorrerão mudanças significativas na forma como gerimos o papel do governo central, regiões, cidades e grandes empresas na gestão dos sistemas de saúde e da rede de segurança social; a nossa confiança no Estado e outras instituições públicas; a nossa reserva de privacidade face ao potencial da tecnologia na prevenção e rastreio da transmissão do vírus; o equilíbrio entre eficiência e resiliência nas cadeias de abastecimento; e os espaços de trabalho e de educação, combinando a presença física como modelos de atuação remota.

Entre os vários cenários – do mais pessimista ao mais otimista – antecipam que algum se enquadrará à realidade nacional?
Considerando o nosso enquadramento político e económico – economia aberta, integrada nas Uniões Europeia e Monetária, com um elevado peso de atividades exportadoras – a nossa evolução estará muito associada ao nível de colaboração entre governos e à recuperação dos mercados europeus.
O melhor cenário para Portugal seria, naturalmente, aquele em que a UE melhor consegue cumprir o seu desígnio de partilha de informação, recursos e melhores práticas, capacitando cada país das melhores soluções médicas, tecnológicas e financeiras desenvolvidas por cada um dos seus Estados-membros. Qualquer outro cenário em que, por exemplo, cada país se feche mais sobre si mesmo ou em que a coesão social se degrade face a um aumento da desigualdade, seria muito negativo para nós.

Não obstante a variabilidade e imprevisibilidade dos dados, é possível antecipar o impacto na atividade económica nacional?
O impacto imediato será muito forte. As previsões atuais apontam para uma contração em um ano superior à que foi observada em todo o período da crise financeira de 2010-2014. O Estado pode ajudar no curto prazo a proteger liquidez e emprego, mas a recuperação da economia só ocorrerá quando o consumo voltar a crescer, e, com ele, a atividade das nossas indústrias exportadoras.

O tecido económico nacional é dominado por PME. Este mapa poderá, de alguma forma, ser redesenhado?
As PME têm sido as mais imediatamente impactadas, porque trabalham com níveis mais reduzidos de margem e liquidez, o que limita a sua capacidade para suportar mesmo apenas algumas semanas de paragem. Também as suas perspetivas a médio prazo são preocupantes, uma vez que estão desproporcionalmente representadas nos setores cuja recuperação se prevê mais demorada, como a restauração, turismo, construção, imobiliário e comércio não-alimentar.
A capacidade do Estado e do sistema financeiro para injetar liquidez na economia será determinante no curto prazo, mas mais importante será a evolução da confiança dos consumidores, sem a qual não poderá haver uma retoma estrutural nos níveis de consumo.

E no retalho, em concreto? Iremos assistir a uma recuperação a duas velocidades, com o alimentar e o não alimentar a reagir de formas diferentes, porque o impacto também foi diferente?
São duas histórias muito distintas, embora ambos os setores enfrentem desafios complexos no caminho para a recuperação.
Após um pico de procura no início do confinamento, o comércio alimentar também começa a sentir uma contração no consumo, em particular em bens considerados não essenciais, e uma acrescida sensibilidade ao preço. As maiores preocupações no médio prazo estão, contudo, do lado da oferta, à medida que exigências acrescidas de risco e segurança obrigam os retalhistas a tomar decisões de sourcing e distribuição que prejudicam a sua eficiência e aumentam o preço para o consumidor.
Já no não alimentar veremos muitos operadores a lutar pela sobrevivência, mesmo após reabertura dos espaços comerciais e libertação das restrições à circulação de pessoas. A esperada transferência de consumo para canais não presenciais, em particular via e-commerce, favorecerá os retalhistas que melhor se prepararam antes da crise, assim como os que melhor se souberem adaptar às necessidades de um consumidor mais frugal e menos móvel.

 

Fonte: Store

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