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segunda-feira, 12 outubro 2020 16:49

João Torres: “A digitalização e a economia circular são os grandes desafios”

Portugal está no bom caminho no que toca aos dois grandes desafios que a economia enfrenta: a digitalização e a evolução para um modelo de produção circular. É esta a visão do secretário de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor, João Torres, que entende que, em ambos, o retalho tem tido um papel liderante. Tal como foi decisivo para que a cadeia de abastecimento alimentar funcionasse durante o período de confinamento, permitindo aos portugueses ter acesso aos bens essenciais. Não obstante essa análise positiva, não esconde o impacto que a pandemia está a ter a nível económico e social, apontando para uma contração do PIB em 2020 superior à de todos os anos da troika.

Store | Em março, depois de uma reunião com várias organizações representativas da cadeia de abastecimento alimentar, garantiu que não haveria rutura de stocks. Volvidos estes meses, que balanço faz?

João Torres | O funcionamento das cadeias de abastecimento em Portugal foi absolutamente exemplar. Nenhuma sociedade estava devidamente preparada para uma crise com o impacto desta pandemia, mas foram absolutamente notáveis o empenho e o desempenho dos operadores económicos em toda a cadeia de valor, desde os setores da agricultura e da indústria agroalimentar, passando pelos setores da logística e dos transportes e, naturalmente, pelo retalho e distribuição. E a prova disso mesmo é que em circunstância alguma estivemos verdadeiramente perante o risco de rutura de stocks, em particular naqueles que são os produtos de primeira necessidade essenciais para o nosso quotidiano. É, por isso, de louvar o trabalho que os diferentes setores da economia desenvolveram a este respeito, mas permito-me salientar o contributo do retalho e da distribuição para que, num período especialmente critico de confinamento, que foi o que vivemos durante a vigência do estado de emergência, os cidadãos consumidores tivessem continuado a poder dirigir-se aos seus locais tradicionais, em particular aos supermercados e hipermercados, e tivessem conseguido encontrar sempre os produtos que fazem parte do seu cabaz de compras imprescindível. Desde a primeira hora compreendemos que esta crise acarretaria impactos nos modelos e nos padrões de consumo. Foi por isso que, ainda antes de ter sido decretado o estado de emergência, criámos um grupo de avaliação e acompanhamento para reunir diferentes entidades representativas dos três setores que referi. E, ao longo de 12 reuniões, fomos muito intensamente discutindo quais eram as matérias que suscitavam maior preocupação por parte dos operadores económicos, justamente para satisfazer o consumidor e para perceber onde é que a intervenção do governo era importante de modo a consolidar a confiança indispensável para que em momento algum nos víssemos confrontados com eventuais ruturas de stocks. Essas reuniões foram muito amplificadas no que diz respeito às temáticas que ali foram discutidas e desde cedo percebemos que o empenho de todos estes setores acabaria por ser uma das identidades desta crise, na perspetiva de que, quando iniciámos o período de confinamento em Portugal, não sabíamos verdadeiramente qual seria o impacto da crise, quer no consumo, quer na produção. Muitas vezes, questionava-me sobre a eventualidade de alguma coisa correr menos bem, mas neste grupo houve, de facto, um trabalho de grande simbiose entre um conjunto de associações representativas destes setores que, de alguma forma, deram as mãos para, num período especialmente singular, nada faltasse nas casas dos consumidores.

No âmbito desse grupo de trabalho, mencionou a necessidade de análise sobre uma eventual intervenção do governo. Aconteceu?

Do ponto de vista de uma intervenção direta, felizmente não foi necessário, mas recordo-me que dessas reuniões saíram iniciativas que o governo desencadeou, designadamente no que diz respeito à contemplação dos filhos dos trabalhadores destes setores no sistema desenvolvido para acautelar a necessidade de sair todos os dias para trabalhar, de modo a assegurar o funcionamento das cadeias de abastecimento, numa altura em que a mensagem chave era ‘fique em casa’. Refiro-me ao quadro regulamentar que permitia que os filhos tivessem um lugar para permanecer durante o dia. Da mesma forma procurámos intervir no sentido de, por exemplo, assegurar que o transporte de mercadorias não ficaria prejudicado em nenhuma circunstância, mesmo em momentos difíceis como aquele que se verificou com o cerco sanitário no município de Ovar. De facto, dessas 12 reuniões resultaram algumas iniciativas que o governo desenvolveu no sentido de criar melhores condições operativas para o funcionamento da cadeia de abastecimento.

Entretanto, depois de uma fase em que apenas o retalho alimentar esteve aberto, com algumas exceções, o restante retalho, dito especializado, retomou o funcionamento. Foi na altura certa? O que se pretendeu acautelar?

O governo não foi, não é e não será precipitado na forma como decidirá o desconfinamento das atividades económicas. A nossa máxima de proteção de saúde pública é inamovível. Portanto, o primeiro critério, o segundo critério e o terceiro critério que estiveram na base do plano de desconfinamento foram a saúde publica. Por isso, quando, no final de abril, o primeiro-ministro anunciou ao País qual seria a calendarização do desconfinamento foi considerada a necessidade de essa reabertura ser feita com alguma gradualidade, privilegiando algumas recomendações das autoridades de saúde pública. Por isso, no dia 4 de maio abriram os estabelecimentos de comércio e serviços ate 200 m2 não instalados em conjuntos comerciais, no dia 18 essa regra passou para o limiar dos 400 m2 e permitiu-se também a abertura da restauração e em casos específicos, mediante autorização dos municípios, permitiu-se a abertura de outros estabelecimentos de retalho especializado, e depois, no inicio do mês de junho, permitiu-se a reabertura genérica do comércio e serviços, incluindo os conjuntos comerciais. Importa referir que os centros comerciais nunca estiveram encerrados tecnicamente, pois houve um conjunto de estabelecimentos que sempre puderam manter a sua atividade, mesmo nos períodos mais críticos do estado de emergência. E esse conjunto, apesar de tudo, tem alguma expressão nos bens que são procurados pelos consumidores. Aliás, essa exceção foi criada precisamente para proteger as necessidades dos consumidores. O que me parece é que o desconfinamento tem decorrido de forma muito positiva e que, dos microempresários às grandes empresas, há uma grande consciencialização coletiva quanto à necessidade de cada um de nós, consumidores e empresários, sermos agentes de contenção da Covid-19. E é muito importante termos presente que, enquanto o vírus estiver entre nós e não obstante ser muito positivo o balanço que faço do desconfinamento, há três regras muito simples que teremos de continuar a cumprir: usar a máscara para protegermos os outros, lavar as mãos frequentemente para nos protegermos a nós e mantermos a distância social para nos protegermos a todos. E é só com base no cumprimento destas regras de saúde, higiene e segurança, e daquelas que a Direção-Geral de Saúde mais especificamente concebeu que podemos considerar a retoma da atividade económica mesmo no contexto de uma pandemia. Tenho para mim que, quando o governo apresentou o plano de desconfinamento, se preocupou, em primeira, segunda e terceira ordem, com a saúde publica, mas foi especialmente sensível à necessidade de conter a concentração de pessoas em locais que são, por natureza e definição, geradores de tráfego.

Do ponto de vista da economia, não se poderia ter adiado o desconfinamento?

Nós não desconsideramos o impacto económico, social e até cultural desta crise. A economia está sempre presente, é evidentemente uma preocupação de qualquer Estado responsável, mesmo no contexto de uma pandemia. Mas, quando possibilitámos a abertura de estabelecimentos fizemo-lo na certeza de que havia condições de saúde pública para o fazer. Isso não significa que não consideremos as atividades económicas e os impactos desta crise nos operadores económicos dos mais diversos setores. O comércio, em geral, é o setor mais empregador da economia portuguesa, tem um peso muito significativo, designadamente no que diz respeito ao Valor Acrescentado Bruto. Além de uma missão e de um papel económico de primeira ordem, desempenha também uma função social que é absolutamente imprescindível, faz parte até das idiossincrasias do nosso País – a forma como interagimos com a realidade do comércio é muito própria e muito identitária. Sabemos que existe uma relação de grande proximidade entre os consumidores e os estabelecimentos de comércio, quer estejamos a falar de feiras e mercados, quer estejamos a falar de comércio local, designado de rua, quer estejamos a falar do comércio em conjuntos comerciais, que são, como é público, muito procurados pelos consumidores. Desse ponto de vista, se me pergunta sobre impactos económicos desta crise, o governo nunca os escondeu e, mais do que nunca, é importante sermos verdadeiros em relação ao que está em causa. Só no ano de 2020 estimamos uma contração do Produto Interno Bruto superior à de todos os anos de recessão que se verificaram no período da troika. Foram tomadas, naturalmente, medidas mitigadoras, mas quero dizer que foi o facto de termos preservado em primeiro lugar a saúde publica que nos permite hoje estar a desconfinar e estar a possibilitar a compatibilização da atividade económica com a vivência em comunidade num contexto de pandemia.

O que se verificou, entretanto, foi uma aceleração dos negócios online. Foi o impulso de que o e-commerce precisava?

Há padrões de consumo que foram alterados de forma estrutural com a Covid-19. O que significa que o peso relativo do comércio eletrónico vai continuar a aumentar substancialmente. Chegámos a um ponto de não retorno no que diz respeito à essencialidade do comercio eletrónico para um vasto conjunto de operadores económicos no nosso País. O peso do comércio eletrónico destinado ao consumidor final foi de 2,9% do PIB em 2019, estimava-se que viesse a ser de 3,2% em 2020, mas os últimos dados de que dispomos já nos remetem para 4,3%. Estamos a falar, por isso, de uma mudança muito súbita de comportamentos do lado do consumo, o que significa também que os operadores económicos estiveram e estão sujeitos a uma pressão adicional para, de alguma forma, reconfigurarem os seus modelos de negócio, sobretudo no que diz respeito à dimensão logística. Felizmente a capacidade de adaptação dos operadores deste setor é também digna de registo. Percebemos que, numa primeira fase, dado o pico de procura de entregas em casa, em particular no retalho alimentar, houve algumas dificuldades de resposta no curto prazo, que são absolutamente compreensíveis, diria até que normais, dada a alteração súbita do comportamento dos consumidores. Mas houve uma capacidade de adaptação e uma predisposição para essa adaptação desde a primeira hora, o que num curto espaço de tempo levou a uma normalização dos tempos de entrega. O comércio eletrónico já era uma realidade antes da Covid-19 e o incremento das transações por via eletrónica também já era uma realidade antes da Covid-19. O que esta pandemia veio fazer foi acelerar essa transição e isso é particularmente significativo na perspetiva de poder constituir uma nova oportunidade para os operadores económicos do setor do retalho. Este é o tempo da omnicanalidade. E essa omnicanalidade implica uma relação muito profunda entre o online e o offline e um conjunto de plataformas, serviços e modelos que estão centrados nas necessidades do consumidor. E implica que os consumidores tenham acesso a um produto, simultaneamente, por via de um estabelecimento físico, por via de um sítio de internet, ou ainda por via de uma plataforma eletrónica com a possibilidade de esse produto ser entregue em casa ou levantado na loja. Há, pois, um ganho competitivo muito significativo para a economia, se todos souberem aproveitar, à sua escala e à medida das suas necessidades, as oportunidades emergentes com a digitalização da economia. Considero que a economia digital é uma grande oportunidade. Assim saibamos aproveitar.

 

Esta entrevista pode ser lida na íntegra na edição impressa da Store.

 

Fonte: Store