quinta-feira, 07 janeiro 2021 13:44

Sofia Colares Alves: “Estou certa de que haverá capacidade para acelerar dossiês complexos”

A Presidência Portuguesa da União Europeia, que se iniciou a 1 de janeiro de 2021, é o pretexto para esta entrevista com a Chefe de Representação da Comissão Europeia em Lisboa. Sofia Colares Alves partilha a sua visão sobre o contexto em que esse semestre decorrerá, bem como sobre os principais dossiês em cima da mesa e o cunho que a diplomacia nacional lhes poderá imprimir. Analisa, igualmente, os apoios ao retalho com vista à recuperação do impacto causado pela pandemia de Covid-19.

Store | A Presidência Portuguesa da União Europeia ocorre num contexto muito particular, marcado, nomeadamente, pela pandemia de Covid-19 e pela entrada de uma nova administração norte-americana. Quer comentar?

Sofia Colares Alves | É verdade. Vão ser grandes os desafios da Presidência portuguesa. Em 2021, teremos muito que fazer na frente da gestão da pandemia. Temos claros sinais positivos no que diz respeito à vacina e esperamos que possa começar a ser administrada em inícios de 2021. Há que implementar o plano de recuperação económica que ainda tem de ser adotado pelo Conselho para que possa chegar aos europeus que precisam de apoio e para sairmos da crise investindo na sociedade que queremos: mais sustentável, mais digital, mais justa. Estas duas áreas são exatamente os domínios em que a UE deverá procurar trabalhar de forma estreita com a nova administração americana. E Portugal poderá, de facto, contribuir para um relançar da relação transatlântica, pois Portugal tem interesse numa parceria forte com os Estados Unidos. A Presidência portuguesa também vai coincidir com os primeiros meses da saída do Reino Unido do mercado único, um novo capítulo da nossa história. Mas como diz, e bem, a agenda complexa da UE continua: Portugal terá de empurrar dossiers complexos como o pacto ecológico e a sua lei do clima ou o plano de ação para a migração. Há muito trabalho! Portugal leva sempre muito a sério a sua Presidência e é conhecido por ser um país muito eficaz a gerir a sua Presidência, pelo que há grandes expectativas face a esta missão que Portugal assume no dia 1 de janeiro.

Como representante da Comissão Europeia em Lisboa, que relevância atribui ao facto de Portugal assumir a Presidência nesta altura?

Enorme relevância. Pelo momento único, a que aludi na resposta anterior. E porque uma Presidência é sempre uma oportunidade de impor um cunho a prioridades que são importantes para o país. Por exemplo, Portugal dará uma especial atenção a África, promoverá uma cimeira com a Índia, e dará um forte acento tónico às questões sociais, com a organização de uma reunião informal de chefes de Estado e Governo sobre o Pilar Social Europeu.

Como olha para o papel de Portugal na coesão e no diálogo europeus?

Portugal tem sido, desde sempre, um parceiro muito construtivo no projeto europeu. É reconhecida a dedicação e o profissionalismo da sua diplomacia, procurando sempre encontrar soluções e o diálogo. Tem tido também comissários que têm comprovado o talento português. A Comissão tem agora, na pasta da Coesão, a portuguesa Elisa Ferreira, que assumiu estas funções após uma vasta experiência em temas europeus, em temas financeiros e em temas de desenvolvimento regional. O Plano de Recuperação reforça os recursos desta política europeia e Portugal tem sido um defensor e um grande beneficiário de todas as políticas que promovem a convergência entre os países da União. Os portugueses sentem-se realmente parte da União e, na sua grande maioria, defendem-na e participam criticamente na melhoria deste projeto que está incompleto, mas que, sem dúvida, contribui em muito para a nossa segurança, proteção e desenvolvimento.

Quais antecipa que sejam os principais dossiês em cima da mesa neste semestre?

Penso que os principais temas passam pela gestão da pandemia, a recuperação rumo a uma maior resiliência e a aceleração da dupla transição ecológica e digital; o reforço do pilar social europeu, também para enfrentar melhor os impactos da pandemia, e olhar para África e a Índia como parceiros estratégicos da Europa no seu reforçado papel geopolítico. Os próximos meses e anos representam um momento histórico e que vai ditar o que deixamos às futuras gerações. Faz agora um ano o mandato desta Comissão, que começou em dezembro de 2019 e, nessa altura, desenhámos a visão de uma sociedade mais saudável, com um grande salto qualitativo na forma como gerimos os recursos e nos relacionamos com a natureza, mais próspera e socialmente justa e onde a Europa ganhe liderança no mundo, em áreas como a da inovação e do digital. Sempre com a defesa dos direitos humanos e das liberdades fundamentais no centro de tudo o que fazemos. Ora isto continua e até é mais importante agora. Este é o momento de sermos o que queremos ser, para nós e para o mundo, de concretizar esta visão sem demoras.

São expectáveis desenvolvimentos assinaláveis?

Portugal tem uma diplomacia muito eficaz e estou certa de que haverá capacidade para acelerar alguns dossiês legislativos complexos. Mas a evolução da pandemia e este estado de gestão de crise vai continuar e naturalmente vai condicionar os desenvolvimentos das várias frentes da agenda da UE. A pandemia mostrou as fragilidades, mas também confirmou o melhor de nós, quando trabalhamos juntos, e do valor da sociedade única que temos na União Europeia, de tanta coisa que dávamos por adquirido, como a liberdade de circulação, a ligação à comunidade, a proteção social ou o acesso universal a um sistema de saúde de qualidade. Já estamos a trabalhar no plano de ação para a implementação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais e a cimeira social prevista para acontecer no próximo maio durante a presidência portuguesa será de facto um importante marco nesta matéria.

Que leitura faz do papel da Representação europeia no diálogo com as autoridades nacionais?

Temos um excelente e regular diálogo com as autoridades nacionais, como nos compete. Procuramos manter as autoridades, mas também os cidadãos, informados sobre as prioridades e decisões da União Europeia. Organizamos muitas iniciativas com as autoridades, mas também com a sociedade civil em geral. E, nesse diálogo, ficamos também a compreender aquilo que preocupa o Governo, os vários agentes políticos e organizações, as pessoas. Essas preocupações, ideias, desafios e possibilidades são tidas em conta no desenvolvimento das políticas, de forma a atuarmos de forma cada vez mais eficaz.

 

Esta entrevista pode ser lida na íntegra na última edição da Store.

Fonte: Store

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