segunda-feira, 14 junho 2021 09:11

André de Aragão Azevedo: “Retalho vai beneficiar dos incentivos à transição digital”

A transição digital representa uma oportunidade para as empresas nacionais, nomeadamente do retalho, por via da criação de incentivos. É esta a visão do secretário de Estado para a Transição Digital, André de Aragão Azevedo, que entende que as retalhistas vão beneficiar do Plano de Recuperação e Resiliência. Considera inegável que a pandemia acelerou o e-commerce e defende que o setor terá de se adaptar a esta nova mentalidade e a um novo modo de compra. “Aqueles que melhor e mais cedo se prepararem terão maior potencial de crescimento e de internacionalização”, sustenta.

Store | A crise pandémica acelerou a transição digital das empresas portuguesas em quantos anos?

André de Aragão Azevedo | A transição digital é um processo que está em curso, que é imparável e cujo ritmo de aceleração é fortemente impactado pelas circunstâncias. Naturalmente, a pandemia elevou o ritmo de mudança, mas, sobretudo, alterou a perceção pública quanto ao sentido de urgência e à importância estratégica do digital.

Já temos dados relativos a 2020 que comprovam esta tendência de aceleração e que pode ser atestada pela redução significativa de pessoas infoexcluídas (de 22% para 18%), o que mostra uma tendência de forte convergência com a Europa.

Também ao nível das empresas portuguesas se verifica uma adaptação acelerada ao contexto digital, com um forte acréscimo da percentagem de empresas com presença digital, que subiu, em 2020, de 40 para 60%.

As nossas PME e até o pequeno comércio olham, hoje, de forma diferente para o potencial do digital e para as vantagens de investir em inovação e tecnologia.

Acredita que o impulso dado ao digital é irreversível ou algumas das mudanças são temporárias?

Existe hoje um amplo consenso relativamente ao impacto positivo da digitalização acelerada ocorrida em 2020, pelo que não vejo motivo para ser reversível.

Quando a adesão ao digital se traduz num crescimento de vendas ninguém fica indiferente.

Naturalmente que é suposto, depois de uma fase de confinamento, haver um ajustamento e uma normalização de comportamentos, que estarão menos condicionados pelo efeito pandémico.

Veja-se o exemplo do teletrabalho, que está agora em vigor de forma quase generalizada, mas em que, pela primeira vez na história, assistimos a uma convergência entre empregadores e trabalhadores no sentido de manter uma abordagem híbrida, que combine as vantagens do trabalho remoto com presenças pontuais, mas organizadas, nos escritórios físicos das empresas.

A mudança de comportamentos relativamente ao comércio eletrónico é também evidente e os dados que temos, posteriores ao primeiro confinamento, indicam que há um aumento sustentável das compras online, com mais portugueses a comprarem digitalmente, com maior recorrência e com impacto positivo no posicionamento e venda de produtos nacionais.

Os grandes desafios em matéria de transição digital alteraram-se com a pandemia?

Julgo que não, uma vez que, no essencial, as premissas em que fundámos o nosso plano de ação para a transição digital de Portugal não só se mantiveram plenamente válidas, como foi possível imprimir um novo ritmo de concretização, já que muitas das resistências pré-existentes à pandemia deixaram de fazer sentido, abrindo a porta a uma nova mentalidade e a uma cultura mais favorável ao digital.

No caso português, o nosso maior desafio continua a centrar-se no tema das competências e, por isso, constitui o primeiro pilar do nosso plano de ação.

Mas o sucesso na abordagem à transição digital decorre, sobretudo, de uma estratégia integrada e multidimensional que combine a resposta ao desafio das competências com a aceleração da digitalização das nossas empresas e administração pública.

O desafio não é apenas tecnológico, mas sobretudo de pessoas e de mentalidades.

 

A digitalização das empresas nacionais tem sido vivida a duas velocidades, entre grandes e pequenas empresas. Como avalia a situação do tecido empresarial nacional?

É normal que a dimensão da empresa tenho uma correlação direta com o nível de propensão para a sua digitalização, uma vez que, tipicamente, empresas maiores terão mais recursos (financeiros e humanos) que lhes permitam liderar na era digital.

Mas também é verdade que o ecossistema de startups, assente em projetos de pequena escala, mas nativamente digitais, tem, também, por natureza, uma maior apetência para a digitalização. É essa incorporação de tecnologia nos respetivos modelos de negócio, a par com a diferenciação dos recursos humanos, que tornam estas startups mais imunes a crises como aquela que atravessamos.

Um estudo de 2020, realizado já em período de pandemia, revelou um ecossistema de empreendedorismo em contraciclo, com 42% das startups inquiridas a responderem que conseguiram crescer.

Cada empresa e cada setor tem a sua velocidade, mas, no geral, o tecido empresarial nacional tem reconhecido a importância de se digitalizar, no contexto de uma economia global em que todos querem ser competitivos.

Ninguém pode ficar para trás. Esse é também um dos objetivos do Plano de Ação para a Transição Digital, visando de uma forma sistémica e transversal promover a transformação do tecido empresarial no seu todo.

Falamos de dimensões como a captação de investimento e atração de recursos humanos altamente qualificados, que valorizem não só o capital humano nacional, mas que sirvam também de atalho na progressão da digitalização das empresas.

Estamos conscientes da especificidade do nosso universo de micro e PME, que correspondem a 99% do nosso tecido empresarial, e da absoluta necessidade de encontrarmos medidas de discriminação positiva e de apoio ao processo de digitalização deste segmento.

Temos, por isso, estado a trabalhar com a Confederação do Comércio e com outros parceiros no desenho de medidas específicas e de programas que acelerem a transformação digital de toda a cadeia de valor destas empresas, que as capacitem de competências para resolverem problemas nas áreas de back office, passando pela integração de cadeias logísticas e que as lancem na venda online e na dinâmica do marketing digital, abrindo, assim, a porta da internacionalização e de novos mercados.

Para um país periférico e desequilibrado em termos de distribuição de riqueza entre litoral e interior, a transição digital é uma enorme oportunidade, porque abre as portas do mercado global, permitindo a cada empresa, independentemente da sua dimensão ou localização, vender para o mercado único global.

Por fim, e igualmente importante neste desígnio, é a dimensão que permite a passagem do conhecimento técnico e científico para as empresas, em que vemos como essencial esta aproximação e promoção de um verdadeiro comportamento de ecossistema na busca da inovação que crie valor para a economia.

Como observa a transição digital das empresas de retalho?

Em 2020, observámos um crescimento significativo da presença digital das empresas, com um aumento de 40% para 60% no espaço de um ano. Mas, naturalmente que a transição digital das empresas representa bem mais do que a criação de um site. O que está em causa é uma alteração profunda no modo de funcionamento, nos processos internos, na forma de trabalho dos colaboradores, no modelo de negócio, na articulação com plataformas logísticas e cadeias de distribuição, bem como no recurso às novas formas de marketing digital.

No ano passado, mais de cinco milhões de portugueses fizeram compras online. Esta é uma tendência que tem aumentado nos últimos anos, tanto no número de transações como no valor global, e a pandemia obviamente acelerou esta tendência.

O retalho terá de se adaptar a esta nova mentalidade e modo de compra, pois aqueles que melhor e mais cedo se prepararem terão maior potencial de crescimento e de internacionalização.

A transição digital é um dos três pilares do Plano de Recuperação e Resiliência. De que forma vai o governo investir os 650 milhões de euros destinados às empresas 4.0?

A componente específica designada por “empresas 4.0” reproduz uma abordagem em três pilares que já tínhamos utilizado na estruturação do Plano de Ação para a Transição Digital (PATD). Destacamos alguns dos projetos bandeira, como o aumento da rede de Digital Innovation Hubs, a criação de uma rede nacional de test-beds, a promoção de uma linha de apoio à formação e consultoria designada por “Coaching 4.0” e ainda um programa de vouchers para startups desenvolverem soluções digitais, que combinem uma dimensão digital e de sustentabilidade ambiental.

Como vai o governo ajudar à transição digital de um tecido económico constituído sobretudo por micro, pequenas e médias empresas, com baixas reservas económicas e debilitado pela crise pandémica?

É preciso ter em conta a existência de um conjunto alargado de instrumentos financeiros e regulatórios que, combinados, permitirão apoiar e acelerar a transição digital do nosso tecido empresarial, constituído na sua esmagadora maioria por micro, pequenas e médias empresas.

Se, por um lado, a pandemia veio agudizar a situação económica de muitas empresas, também é verdade que nos próximos anos teremos acesso a verbas de apoio à retoma e ao aumento da competitividade como nunca tivemos.

Estou a falar do novo Quadro Comunitário PT2030, que deverá suceder ao PT 2020, mas também aos mais de 13 mil milhões de euros previstos no PRR.

Isto permitirá acelerar esta Agenda Digital, bem como a Agenda Verde, com a consciência de que existe uma enorme interdependência entre ambas.

 

Pode ler esta entrevista na íntegra na edição impressa da Store

Fonte: Store

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