quinta-feira, 10 março 2022 15:54

Fernanda Ferreira Dias: “A transição digital e verde é difícil, mas inevitável”

Verde e digital. Estes são os dois pilares em que assenta a estratégia de crescimento da União Europeia e, por conseguinte, o rumo a seguir também por Portugal. É, pois, em torno destes dossiers que se desenvolve muito do trabalho da Direção-Geral das Atividades Económicas (DGAE), cuja titular, Fernanda Ferreira Dias, reconhece que a transformação das empresas portuguesas para corresponder a este duplo desafio é difícil, mas inevitável. Sobre o retalho, evidencia o grau de digitalização, mas também as boas práticas dadas em matéria de sustentabilidade.

Store | Foi nomeada diretora-geral das Atividades Económicas em 2018. O que tem sido desafiante nestes três anos?

Fernanda Ferreira Dias | O mais desafiante são as pessoas e o dinheiro. No que se refere às pessoas, é ainda mais desafiante na Administração Pública, porque não há a possibilidade de recrutamento externo, pelo que, basicamente, desde 2020 que os funcionários públicos estão a rodar entre ministérios, além de que há um conjunto de pessoas que se tem aposentado. E, portanto, o desafio não é só encontrar pessoas que acompanhem o nível de exigência que nos é cada vez mais pedido, o desafio é que haja pessoas, pura e simplesmente.

A outra questão é o dinheiro. Falo pela DGAE, em que há sempre constrangimentos no orçamento que nos está atribuído por via do Orçamento do Estado. Muitas vezes, os cativos que são aplicados ao funcionamento da própria direção-geral dificultam que projetos que temos em mente e que orçamentámos sejam desenvolvidos se esse orçamento for cativado à partida pelo Ministério das Finanças.

No fundo, esses são desafios comuns a toda a Administração Pública. E quanto a desafios intrínsecos da DGAE, tendo em conta que, nos últimos anos, a economia nacional e as atividades económicas sofreram grandes transformações?

Sem dúvida que as transformações foram muito grandes e muito rápidas. Tivemos como grande desafio responder às empresas e a todos os operadores económicos sobre a pandemia. A pandemia veio trazer um grau de exigência acrescido, não só ao funcionamento da própria Administração Pública, mas também na rapidez com que tem de dar uma resposta e ainda na forma como tem de pensar política pública, ajudar tecnicamente os membros do governo a resolverem os problemas que lhes são apresentados pelas empresas.

Por outro lado, há que responder à exigência da estratégia de crescimento da União Europeia e de Portugal, de transformar a economia para a transição digital e verde, que constitui o rumo a seguir. E é preciso apoiar as empresas portuguesas a adaptarem-se a essa transição que, no fundo, é difícil, mas inevitável.

Como foi responder a estes desafios num contexto de pandemia?

Dadas as restrições que foram impostas à população em geral, não só às empresas, houve que pensar com criatividade – e, aí, tanto as pessoas como as empresas foram muito criativas a pensar em soluções. O grande de adaptação e o espírito de missão verificado de parte a parte foi extraordinário. E aqui estivemos sempre a trabalhar, e a trabalhar sem horas, para arranjar soluções para os problemas que as empresas nos colocavam. Atendemos milhares de pessoas através da nossa linha dedicada, houve um boom de pedidos de ajuda e de informação, nomeadamente quanto à legislação que se aplicava e os apoios que estavam previstos.

Sem pandemia, estaríamos num estado mais atrasado da transição digital?

Nós acreditamos que a pandemia acelerou quer a transição, quer a transformação digital. É que são dois conceitos diferentes: a transição é fazer a mesma coisa, mas de forma digital; a transformação implica fazer de forma completamente diferente. Mas a pandemia veio acelerar ambos, foi uma adaptação necessária, inevitável.

Que diagnóstico faz do estado de maturidade digital das empresas portuguesas?

Em novembro, saiu o DESI – Digital Economy and Society Index, que é o ranking da digitalização das empresas na Europa. Portugal subiu e encontra-se em 16.º lugar no âmbito dos 27 membros da União Europeia. Melhorámos, pois, o nosso grau de digitalização, sendo que este grau é medido em diversas categorias, desde os serviços prestados pela Administração Pública ao modo como as empresas digitalizaram os seus processos normais de operação. Isto também vem provar que as empresas portuguesas têm vindo a conseguir adaptar-se.

Mas o que eu gostaria de dar nota é de que este é um caminho que está em pleno desenvolvimento e que não vai acabar nunca. E que as empresas deverão aproveitar os programas que o governo tem vindo a adotar para as ajudar na transformação digital dos seus negócios, devem aproveitar o financiamento que foi aprovado de forma extraordinária, em 2020, na Europa e que agora chega por via de vários programas, nomeadamente o PRR – Plano de Recuperação e Resiliência. Mas, não só: há toda uma série de programas que se aplicam e que as empresas deverão aproveitar.

Na DGAE, estamos a participar, há cerca de ano e meio, dois anos, na criação de Digital Innovation Hubs. São polos de inovação que funcionarão como intermediárias da digitalização das empresas. Imagine que eu tenho uma PME [Pequena e Média Empresa] e que quero transformar o meu negócio, em concreto digitalizar a minha linha de produção, mas não faço ideia do que preciso fazer e não tenho dinheiro para contratar consultores: posso recorrer a uma destas estruturas, pensadas para me dar essa capacitação. É um programa da União Europeia que se está a montar um pouco por toda a Europa, sectorialmente ou por regiões. Em junho, ficou decidido quais são os polos a nível nacional.

Como olha, em particular, para o estado da digitalização do retalho português?

Devo dizer que ficamos bastante entusiasmados com a rapidez com que a mudança está a operar-se. No retalho, as inovações têm sido tantas e temos vindo a acompanhar esta evolução que, para nós, é verdadeiramente abismal. Há cinco anos, se calhar, era impensável fazer compras online com a facilidade com que as fazemos hoje ou ter os meios de pagamentos que hoje temos à disposição – há pessoas que já não andam com dinheiro… Temos programas que nos ajudam a fazer escolhas com base nas escolhas que fizemos anteriormente – a Inteligência Artificial está a entrar de uma forma surpreendente. Temos lojas onde entramos e saímos sem qualquer contacto humano, nem uma caixa para pagar, tudo com base na tecnologia – e em Portugal há alguns exemplos. Estamos a ver outro tipo de negócio que é uma novidade mais recente – as dark stores.

Enquanto Administração Pública, estamos a acompanhar todos estes processos, que nos obrigam a estar sempre a estudar. Dado que fazemos política pública e legislação, ajudamos a equipa política que depois tomas as decisões, temos de saber informar os membros do governo sobre todas estas mudanças. É um trabalho que não acaba e que tem sido muito enriquecedor.

Estas novas realidades obrigam, certamente, a ajustes legislativos. Quais são, neste âmbito, os projetos mais emblemáticos que a DGAE tem em mãos?

No caso do Comércio, dos Serviços e da Restauração, temos por objetivo adequar a legislação existente à realidade em constante mutação que se nos apresenta, além de que estamos diariamente em contacto com empresas e associações empresariais que nos transmitem as pretensões que têm para o próprio setor. Está em curso a alteração de toda a legislação de base, que data de 2015. É um regime jurídico bastante alargado. Além disso, especificamente na área do comércio, estamos a trabalhar num projeto que esperamos finalizar em breve – o mapeamento de todo o comércio em Portugal, pois, até à data, não existe rigorosamente nada. Depois de concluído, permitirá uma visão mais realista da estrutura do comércio no nosso país, possibilitando ao governo tomar decisões de política pública consoante as características que se identifiquem.
Na DGAE, somos ainda responsáveis por conduzir duas das medidas do PRR que têm a ver com o comércio digital. Somos nós que vamos dar sequência e executar a medida dos bairros comerciais digitais e a medida das aceleradoras para o comércio. Estas últimas são estruturas semelhantes aos polos de inovação digital, mas só para a área do comércio, dando consultoria e ajudando as empresas na transformação digital. Os bairros comerciais digitais estão pensados um pouco à imagem do que existe em Londres há algum tempo, mas para os bairros físicos: uma forma de organizar o comércio numa zona da cidade, nomeando um gestor, como se fosse um centro comercial, e determinando, nomeadamente, o tipo de negócio que pode coexistir numa mesma rua. Não podendo fazer isso, face à propriedade privada, inspirámo-nos messa realidade, mas ao nível do digital. Passa pela criação de um site em que as lojas da Baixa, por exemplo, estarão presentes, beneficiando de toda uma valência de serviços online.

Esta entrevista pode ser lida na íntegra na edição impressa da Store.

Fonte: Store

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