sexta-feira, 28 abril 2023 12:14

Paul Polman: “Empresas corajosas geram lucro através do propósito”

Coragem. Esta é uma palavra transversal à visão de Paul Polman, gestor, autor e consultor e um dos conferencistas do APED Retail Summit. Focado em proporcionar às empresas as ferramentas para a transição dos negócios para um modelo sustentável, defende que a geração de líderes capaz de abraçar esta mudança com sucesso tem de ouvir também o coração. Tem de falar para todos os stakeholders e não apenas para os acionistas, tem de olhar para o impacto de toda a cadeia de valor e tem de forjar parcerias ambiciosas. A liderança corajosa, diz, é o que falta para concretizar este paradigma. E precisa subir mais do que o nível das águas do mar.

Store | A sua conferência no APED Retail Summit subordinou-se ao binómio sustentabilidade e liderança. Qual a principal mensagem associada a esta equação?

Paul Polman | Já muitas pessoas aceitam a ideia de que não há empregos num planeta moribundo e de que as empresas não conseguem sobreviver numa sociedade que fracassa. Apesar disso, enfrentamos grandes dificuldades para manter a subida da temperatura global abaixo dos 1,5 graus, embora a violação deste limite tenha efeitos devastadores. De facto, estamos a regredir em relação a todos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável [ODS] da Agenda 2030 das Nações Unidas, os quais constituem um roteiro para um futuro mais equitativo e sustentável para todos. É muito fácil ficar a olhar para o problema, em vez de colocar o foco nas soluções. Foi por isso que escrevi “Net Positive” e é por isso que falo com os líderes das empresas em todo o mundo, incluindo os da APED, visando ajudar na resposta a “como resolvemos os problemas que enfrentamos?”, em vez de, apenas, responderem a “porque precisamos de novos preocupar?”.

Os desafios globais, e especialmente a desigualdade e as alterações climáticas, são exponenciais na sua natureza. Exigem uma colaboração sem precedentes e a ambição de todas as partes da nossa sociedade para trabalharem em novas parcerias –  governo, empresas e sociedade civil. Requerem mudanças ao nível dos sistemas. Infelizmente, apesar dos compromissos massivos e das mudanças que nos chegam das empresas, dos governos e da sociedade civil, o fosso entre os nossos esforços e os nossos problemas continua a crescer.

Coletivamente, temos a tecnologia, temos o conhecimento e temos os meios financeiros de que necessitamos, mas estamos presos, porque nos falta a peça mais crucial do puzzle – liderança corajosa. Precisamos que os níveis de coragem na liderança subam mais do que os níveis da água do mar. No setor privado, isto significa que os dirigentes empresariais têm de alterar a estratégia de responsabilidade social corporativa do modo de “fazer um pouco menos mal”, que tem sido a norma até agora, para uma filosofia de empresas regeneradoras, restauradoras, reparadoras e que gerem lucro através do propósito. É o que designamos como companhias Net Positive.

Diria que está a emergir uma nova geração de líderes? E quão comprometida com a mudança está?

Estamos a atravessar um momento sem precedentes na história da Humanidade, um tempo de “perma-crise”, em que a pandemia, a guerra, o aquecimento global, a turbulência económica e a divisão social estão, em vários graus, a ameaçar o nosso futuro coletivo. A próxima geração está sintonizada neste contexto e assistimos a uma diferença assinalável no que pretendem para as suas vidas, incluindo a educação que pretendem e os empregadores para os quais querem trabalhar.

Está a verificar-se uma mudança na educação, impulsionada quer pelos estudantes, quer pelos académicos. Os movimentos de jovens inspirados em Greta Thunberg e nos seus pares continuam a fazer ouvir as suas vozes. No final de 2022, protestos em Espanha fizeram com que todos os alunos da Universidade de Barcelona frequentassem um curso obrigatório sobre a crise climática, ao mesmo tempo que foi desenhado um programa de treino para os funcionários. A própria comunidade das escolas de gestão está a passar por esta mudança. É com orgulho que partilho que a Saïd Business School, na Universidade de Oxford, é uma das oito na Europa que juntaram forças para criar a Business Schools for Climate Leadership (BS4CL.org). Em conjunto, vão desenvolver investigação sobre as melhores práticas e trabalhar com as diversas indústrias no sentido de acelerar a resposta da comunidade empresarial.

O compromisso é, efetivamente, sólido. No meu recente relatório “Net Positive Employee Barometer”, concluímos que metade dos colaboradores coloca a possibilidade de se demitir se os valores da empresa não estiverem alinhados com os seus, e um terço já tinha mesmo concretizado esta premissa. Foi sem surpresa que verificámos que os adeptos deste movimento de “conscious quitting” são ainda mais entre a Geração Z e os Millennials.

O que podem ou devem os líderes fazer para acelerar este movimento Net Positive?

Há três componentes essenciais necessárias para um líder Net Positive. Primeiro, precisamos que os líderes assumam a responsabilidade da totalidade do impacto dos seus negócios em toda a cadeia de valor. É encorajador ver que empresas como a Mars, HP, Unilever, JLL, Ford, Trane e Walmart estão a tomar medidas nesse sentido, nomeadamente no que se refere ao combate às emissões de Scope 3 geradas pelos fornecedores e consumidores.

Em segundo lugar, importa que os líderes estabeleçam as metas que a ciência exige – e de que o mundo precisa – em vez de assumirem compromissos de que se podem isentar. Um bom exemplo é a Microsoft, que se comprometeu a ser uma empresa de carbono negativo até 2023, ou a Coca-Cola, que assumiu o compromisso de devolver mais água do que aquela que usa. Estas ambições serão difíceis de concretizar, mas elevam a fasquia de um modo que um objetivo seguro e mais tangível nunca conseguiria. Esta ideia é central para se ser um líder ou uma companhia Net Positive.

A terceira componente prende-se com os CEO que colaboram para impulsionar as mudanças que as empresas não conseguem fazer sozinhas. Por exemplo, a First Movers Coalition alavancou um compromisso de 12 mil milhões de dólares até 2030 para a aquisição de tecnologias verdes que contribuam para descarbonizar a indústria do cimento e do betão e outros setores como o transporte de mercadorias e a aviação. Outro grande exemplo é o The Fashion Pact, lançado em 2019, e que envolve mais de 70 líderes de todo o mundo, comprometidos com a promoção de reformas cruciais como a eliminação do plástico de uso único ou a utilização de algodão regenerativo, ou ainda a adoção de metas climáticas baseadas na ciência.

A importância da ação coletiva e inovadora da indústria não estava no radar de muitos CEO até há cinco anos, mas está a emergir em múltiplos setores. Os desafios interconectados atuais requerem uma liderança disponível para juntar forças com os seus pares na indústria e em toda a cadeia de valor, de modo a acelerar as soluções.

 

Esta entrevista pode ser lida na íntegra na edição de janeiro/março 2023 da Store Magazine.

Fonte: Store Magazine

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