quinta-feira, 20 agosto 2020 15:49

A visão de Luís Osório sobre o retalho: “Na linha da frente, tal como médicos e enfermeiros”

Talvez não saibam da importância do que aconteceu. Por vezes, quando estamos muito embrenhados na nossa vida torna-se mais difícil entender o verdadeiro valor das coisas, mesmo do que fazemos de muito bom ou extraordinário.

Talvez não saibam… insisto… que nos dias de Páscoa, quando existiam ainda mais perguntas por responder do que hoje, os supermercados foram provavelmente o único lugar em que pude encontrar a normalidade perdida. Aconteceu-me. E acredito que tenha acontecido com milhares de outros como eu.  

Num daqueles dias pascais, no princípio da manhã, com gente fechada em casa, igrejas vazias, viagens proibidas e mortos sem despedida, entrei num supermercado sem expetativa de coisa alguma. Tinha a minha lista de compras e o telemóvel no bolso para o caso de me perder (um clássico de que não me orgulho), entrei sem pressa ou vagar. Por um lado, com vontade de não me fechar outra vez em casa; por outro, com vontade de regressar ao sofá o mais rapidamente possível, um paradoxo difícil de resolver.

Era uma grande superfície. Passei pelas fileiras habituais, interessava-me despachar o talho e dirigi-me ao fundo da loja. Antes de chegar às costeletas e aos bifes (a que volto em situações de crise quase como se procurasse conforto) percebi que era Páscoa. As amêndoas, os folares e tudo o resto estavam nos lugares habituais, como se nada fosse. Há momentos em que um bocadinho de normalidade pode desencadear um tremor interior de alta intensidade, posso comprová-lo.  

Estamos há mais de dois meses nisto. Numa espécie de uma vida paralela, à distância, sem abraçar e beijar, sem estar, sem viajar, com medo do medo. Um estado de sítio sem tropas na fronteira, um estado de sítio em que os nossos inimigos são invisíveis, quase como se psicoticamente estivéssemos a fugir de algo que apenas está em nós. É nestas alturas mais difíceis que se torna fundamental existirem faróis que nos obriguem a não ir para fora de pé. A distribuição tem estado na linha da frente, não há ninguém que o possa desmentir – é pacífico afirmar-se que o papel de todos os profissionais do setor foi tão importante como o dos médicos e enfermeiros nos hospitais. Sem eles, sem cada um de vocês, teria sido impossível sobreviver. Imaginar um outro cenário é simplesmente assustador.

Há coisas que damos por adquiridas. E ainda bem. É justo dizer que a importância da distribuição – felizmente há menos gente a chamar-lhe retalho – tem sido crescente nos últimos anos. São empresas com uma ligação direta com as pessoas e as suas necessidades, empresas que revolucionaram o modo como se consome, empresas que souberam estratificar os desejos pela capacidade de cada um poder pagar mais ou menos, empresas que estão na vanguarda do que melhor se faz no uso de tecnologia.

É justo dizer que a sua existência salvou muitas vidas de se perderem no vazio de nada poderem ter. Como, aliás, aconteceu também na grave crise económica que condenou o país a ser intervencionado por três credores internacionais. Também aí, por entre escombros económicos e uma enormíssima dificuldade de uma parte importante das famílias portuguesas, souberam estar à altura do momento. Baixaram-se os preços, promoveram-se as marcas próprias e investiu-se numa política de promoções que tornou a vida mais suportável para tantos.

É justo, por fim, dizer que naquele princípio da manhã, depois de me comover com uma Páscoa antes da Páscoa, no caminho de regresso a casa, abri os olhos para ver e não apenas para olhar. Já não me acontecia há uns largos dias, voltar a ver que existe futuro. Não sabemos se “vai tudo ficar bem”, mas sei que, mal ou bem, saberei onde encontrar a minha Páscoa. 

Fonte: Store

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