quinta-feira, 29 julho 2021 14:16

Ana Paula Barbosa: Consumo na “era-Covid” – tendências vs turbulências

A Retailer Vertical Director, NielsenIQ, Ana Paula Barbosa, analisa as tendências de consumo identificadas em consequência da pandemia de Covid-19, considerando que emergiram alguns comportamentos novos, ao mesmo tempo que se confirmaram movimentos que já se anunciavam.

"São várias as alterações que se observam no comportamento do consumidor desde março de 2020 até agora. Existiram comportamentos de compra específicos em cada fase de evolução da pandemia. A questão que se coloca agora é a de saber que tendências irão permanecer na era “pós-Covid”. Daí a necessidade de distinguir as tendências de consumo daquilo a que poderemos chamar de turbulências.

As turbulências caracterizam-se por alterações no comportamento dos consumidores que se devem a fatores conjunturais, e que deixam de acontecer quando o contexto volta à normalidade ou se altera novamente. As tendências são as evoluções de consumo que se devem a mudanças mais estruturais nos padrões de consumo.

Portugueses vão menos vezes às compras, mas gastam mais

Desde o início da pandemia que os portugueses têm vindo a comprar com menos frequência, optando por cestas maiores. Este novo padrão está diretamente ligado ao contexto de pandemia, em que as pessoas procuram evitar contágios; mas não está em linha com aquilo que se verificava nos últimos anos, em que as cestas pequenas ganhavam cada vez mais importância. É expectável que estes hábitos se alterem no pós-Covid.

Alterações na escolha do local de compra: lojas grandes vs online vs conveniência

Os critérios para a escolha do local de compra foram fortemente influenciados pelo contexto. Muitos portugueses optaram por lojas diferentes do habitual, muitas vezes de maior dimensão, para evitar filas e conseguir comprar uma quantidade maior de produtos num curto espaço de tempo. Outros optaram por lojas de proximidade para evitar deslocações, sendo que muitas delas passaram a disponibilizar serviços de entregas em casa. E finalmente, existiu um crescimento exponencial da compra online, com um aumento visível de seniores a experimentar este novo canal.

A questão que se coloca é: será que estes comportamentos irão permanecer após a crise sanitária? A resposta depende do nível de satisfação que estas novas experiências proporcionaram aos seus clientes.

Transferência de consumo para dentro de casa

As várias restrições associadas ao longo do desenvolvimento da pandemia vieram alterar o dinamismo das categorias. De uma forma geral, as categorias com maiores crescimentos resultam de uma transferência de consumo fora de casa para dentro. É o caso dos produtos alimentares, bebidas quentes, cervejas, produtos congelados; mas também acontece com algumas de categorias de beleza, como as colorações ou produtos para depilação, por exemplo. Por outro lado, algumas categorias são penalizadas pelo facto de os portugueses permanecerem mais em casa: é o caso dos produtos para a barba, dos produtos para pentear ou da perfumaria.

Categorias de valor acrescentado continuam a crescer

Apesar do carácter atípico do comportamento do consumidor, existe um conjunto de categorias que mantém tendências semelhantes àquelas que se verificavam antes da pandemia. Os produtos “premium”, como os tipos especiais de arroz, massas ou óleos por exemplo, continuam a crescer acima da média. Isso também se verifica com os produtos biológicos, que mantêm o dinamismo em várias categorias.

Tendências vs turbulências

Muitas das alterações verificadas ao longo do ano 2020 foram a consequência de um contexto muito específico que, esperemos, se irá alterar com a generalização da vacinação contra a Covid-19. À medida que formos “desconfinando” e retomando hábitos, estas turbulências deixarão de existir.

No entanto, esta pandemia veio também reforçar ou acelerar algumas tendências pré-existentes:

- Saúde: Já estava no topo das preocupações dos portugueses em 2019 e vai continuar a ser uma prioridade nos próximos anos;

- Conveniência: No ano 2020, os operadores do grande consumo conseguiram desenvolver várias iniciativas no sentido de facilitar a vida aos seus clientes. As entregas ao domicílio tiveram um destaque importante para os consumidores e muitos deles vão continuar a valorizar este serviço;

- Compra online dos bens de grande consumo: Paralelamente à adoção deste modo de compra por uma fatia cada vez maior de portugueses, prevê-se um alargamento da oferta dos próximos meses que irá irremediavelmente levar este canal para outro nível;

- Trabalho remoto: Era residual no pré-Covid, mas com uma tendência já crescente. Irá aumentar de forma significativa no pós-Covid, o que trará grandes impactos na forma como os portugueses compram e consomem;

- Situação económica: O contexto económico tem sempre um impacto importante no consumo. No entanto, a história diz-nos que a indústria dos bens de grande consumo é a que melhor resiste às crises. Os portugueses irão provavelmente reduzir investimentos na aquisição de bens duráveis ou em lazer fora de casa, mas continuarão a procurar “luxos acessíveis” nos supermercados

Apesar de as perspetivas não serem as mais otimistas para os próximos meses, é crítico que a indústria e o retalho encarem estas tendências como oportunidades para desenvolver uma oferta de acordo com as novas exigências dos consumidores."

Fonte: Store

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