quinta-feira, 25 janeiro 2024 15:12

Agência Portuguesa do Ambiente: os desafios dos têxteis na sustentabilidade

A vogal do conselho diretivo da APA – Agência Portuguesa do Ambiente Ana Cristina Carrola reflete sobre os desafios ambientais enfrentados pelo setor do têxtil e vestuário em Portugal e na União Europeia.

O setor do têxtil e vestuário tem em Portugal uma importância significativa no tecido industrial, no emprego e nas exportações. Estamos a falar de cerca de 12.300 empresas e de cerca de 136.000 postos de trabalho, que se concentram na região Norte do país.[1]

É um setor que claramente se situa no mercado global e que tem exigido uma elevada capacidade adaptativa do nosso tecido empresarial. Temos, portanto, atores que têm convivido com exercícios competitivos muito exigentes e que estão habilitados para continuar a ultrapassar os desafios ambientais.

Os impactos do setor no ambiente e no clima são significativos e fazem-se sentir em vários aspetos, no consumo de recursos (matérias-primas e água), na utilização do solo, nas emissões de CO2 e nas emissões de poluentes. Estima-se que menos de 1% de todo o têxtil mundial seja reciclado[2].

Estes impactos têm sido ampliados com o aumento do consumo associado à “fast fashion” e concomitante com uma tendência de redução de preços.

Os estudos da Agência Europeia do Ambiente dizem-nos que os europeus consomem em média 26 kg de têxteis por ano.

No entanto, uma vez que no espaço europeu somos sobretudo importadores, os impactos sobre o Ambiente acontecem principalmente noutras regiões do planeta que concentram a produção (85 % da utilização das matérias-primas, 92 % da utilização da água, 93 % da utilização do solo e 76 % das emissões de CO2).

Temos, portanto, que olhar para este setor na perspetiva de toda a cadeia de valor, desde os fornecimentos, ao ciclo de produção, de consumo e de fim de vida.

O Plano de Ação para a Economia Circular (PAEC) da União Europeia considera os Têxteis como uma das cadeias de valor chave para a Economia Circular, em que a Comissão irá cooperar com as partes interessadas para identificar as barreiras à expansão dos mercados para produtos circulares.

No contexto da estratégia para os têxteis que visa, em particular, reforçar o mercado da UE para o têxtil sustentável e circular, incluindo o mercado para o têxtil reutilizado, lidar com a “fast fashion” e novos modelos de negócio encontram-se previstas as seguintes medidas:

“•          Aplicar o novo quadro estratégico para a sustentabilidade dos produtos, incluindo definir medidas em matéria de conceção ecológica para garantir que os produtos têxteis se adequam à circularidade, garantir a utilização de matérias-primas secundárias e combater a presença de produtos químicos perigosos, bem como capacitar as empresas e os consumidores para escolherem têxteis sustentáveis e terem acesso facilitado a serviços de reutilização e reparação;

  • Melhorar o contexto empresarial e regulamentar dos têxteis sustentáveis e circulares na UE, nomeadamente através da concessão de incentivos e apoios aos modelos de negócio “produto como um serviço” e aos materiais e processos de produção de natureza circular, bem como aumentar a transparência por meio da cooperação internacional;
  • Fornecer orientações para alcançar níveis elevados de recolha seletiva de resíduos têxteis, que os Estados-Membros devem garantir até 2025;
  • Impulsionar a triagem, a reutilização e a reciclagem de têxteis, incluindo por meio da inovação, incentivar as aplicações industriais e aplicar medidas de regulamentação, como a responsabilidade alargada do produtor.”[4]

No PAEC para Portugal apontou-se para o desenvolvimento de agendas setoriais de transição, destacando-se o setor têxtil, pelo seu cariz exportador e pela sua relevância em termos de eficiência de recursos.

Os materiais utilizados no têxtil são um aspeto muito importante. Sabemos que cerca de 60% das fibras têxteis são sintéticas e o poliéster é a fibra mais usada, produzida a partir de processos intensivos em carbono que requerem mais de 70 milhões de barris de petróleo a cada ano[5].

Através da Iniciativa Bioeconomia Sustentável, do PRR, o Governo identificou o têxtil como um dos três setores em que Portugal reúne condições favoráveis para responder ao desafio de responder a soluções inovadoras de utilização de novas matérias-primas renováveis.

As políticas a efetivar deverão ser de largo espectro, desde o apoio a soluções inovadoras no que se refere a novos materiais até a novos fluxos de recolha seletiva que iremos adotar. Conforme já inscrito no regime geral de gestão de resíduos, até 1 de janeiro de 2025, as entidades responsáveis pelo sistema municipal de gestão de resíduos urbanos disponibilizam uma rede de recolha seletiva para os resíduos têxteis. Será ainda de ponderar a introdução neste fluxo específico de uma responsabilidade alargada do produtor.

Importa, portanto, neste âmbito uma aposta reforçada na reciclagem e na utilização de material reciclado que terá um novo impulso no horizonte de 2025.

Não obstante, importa que seja percebido o motivo da obrigação de recolha seletiva dos têxteis ser apenas em 2025, pois de facto quando se cria um sistema de recolha seletiva, é necessário garantir que existe tratamento adequado para os resíduos recolhidos, ou seja, indústrias que garantam a sua reciclagem a posteriori, preferencialmente em soluções de proximidade, que garantem uma baixa pegada ecológica associada ao transporte, se possível em países comunitários onde é mais fácil garantir a rastreabilidade destes resíduos e seu tratamento. Ora este destino, não está à data ainda assegurado, nem a nível nacional, nem a nível comunitário, para os denominados “têxteis pós-consumo”, ou seja, aqueles que não resultam da produção industrial, mas sim da utilização pelo cidadão. A falta de recicladores para esta fração prende-se com a conceção dos produtos, quer ao nível das fibras utilizadas, bem como das suas misturas (como poliéster e algodão), quer em matéria de acessórios, que dificultam ou inviabilizam a sua reciclagem. Assim, torna-se necessário prever um período de adaptação para a indústria, no sentido de garantir que existe a possibilidade de criação de valor com a recuperação dos materiais que garanta um efetivo benefício a obter com a sua recolha seletiva.

Torna-se crucial e urgente robustecer a aposta na sustentabilidade dos processos produtivos, no respeito pelas boas práticas ambientais, mas também incentivar a divulgação de informação ambiental do produto, que permitirá escolhas mais informadas por parte dos consumidores, intermédios e finais.

Deverão ainda ser promovidas formas/modelos de reutilização, de remanufactura e de reparabilidade que contribuam para a redução do desperdício têxtil e o prolongamento da vida útil dos produtos.

Ana Cristina Carrola, vogal do conselho diretivo da APA – Agência Portuguesa do Ambiente

Fonte: Store Magazine

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